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Toda dor que eu sinto

Toda a dor que eu sinto





N/A: Música incidental: Israel´s Son, do Silverchair




A opulenta mansão dos Malfoy nunca vira dias tão tristes: outrora um lugar de luxo e riqueza, seu ar agora era quase o de uma casa abandonada. O mato que crescera na primavera não fora podado e resquícios do inverno terminado há muito ainda residiam nos montes de lixo e refugo acumulados nos passeios.

O crepúsculo cuidava do resto. Quando o sol se punha, as vidraças opacas das janelas mais pareciam espelhos que refletiam aos passantes um brilho perdido. Isto é, se os eventuais transeuntes conseguissem ver a casa: ela estava protegida, nesse verão, por muito mais do que as árvores frondosas que cresciam rente ao muro.

Nesse instante, três figuras altas cruzavam os jardins mal-cuidados: um rapaz loiro, de feições delicadas e olhar decidido, parecia liderar o grupo; logo atrás, uma mulher quase da sua altura, com os mesmos traços requintados, mostrava-se relutante em prosseguir, embora conhecesse o caminho. Por último, estava uma morena de olhos frios, que recaíam sobre a nuca do rapaz. Parecia estar feliz com alguma coisa.

- Draco, não entre! – pediu a primeira mulher, segurando o menino pelo braço. Estavam diante da enorme porta de carvalho inglês que dava acesso à mansão.

- Como não, Cissa? – A segunda se aproximou e afastou os dois – Draco é quase um homem, sabe se decidir sozinho. Não é, Draco? – Fixou os olhos negros nos azuis de Draco.

“Eu sei que você tem medo, Draco. É um fracassado, assim como seu pai...”


Hate is what I feel for you,
Ódio é o que eu sinto por você

And I want you to know that I want you dead
Desejo que saiba que eu quero você morto

You're late for the execution...
Você estava atrasado para a execução...

If you're not here soon, I'll kill your friend instead
Se não aparecer em breve, Vou matar seu amigo em seu lugar


- Sim. Já me decidi. – Draco fitava os olhos da mulher, com vontade de piscar. Sabia o que ela estava tentando fazer...

“Não me importo com o medo. Ele me chamou, estou aqui. Não tenho medo”.

Quando sentiu que seu olhar fraquejaria, a morena deu uma risada alta, quase histérica:

- Isso mesmo, garoto! Tenho orgulho de tê-lo como sobrinho! Agora acalme-se, Cissa, ou não vão nos deixar entrar.

- Não me interessa! – Cissa gritava agora – Bella, não vê o que ele pretende? Por que chamou Draco aqui?

Bella abriu um sorriso enorme – Sim, eu sei. Fico contente que Draco tenha alcançado essa honra...

Cissa explodiu:

- HONRA?!? Draco é uma criança, Bella! Como ele pode ser útil... se Lúcio...

- Lúcio falhou. Deixou a profecia quebrar. O Lord das Trevas precisa de mãos para trabalhar pela sua causa, Cissa, não de lamentações.

“Você deixou meu pai ser preso... VOCÊ! Se eu pudesse, faria você sentir dor agora, com minha própria varinha...”


All the pain I feel,
Toda dor que eu sinto

couldn't start to heal,
Não pôde começar a sarar

although I would like it to
Embora eu quisesse


“ Você não é capaz, moleque. Vai morrer, eu sei. Mas vai morrer tentando, e isso é tudo o que importa”.

O momento de tensão pareceu ceder quando a porta foi aberta por um homem grande e quadrado. Tinha o rosto duro e marcado pelo tempo, como uma rocha atingida constantemente pelo mar.

- Bellatriz, Narcisa! – cumprimentou ele – E também... Ah!

- O Lord das Trevas o chamou aqui, Amico – esclareceu Bellatriz – Podemos entrar?

- Claro, claro! Você é esperado, Draco... – garantiu Amico, abrindo mais a porta e olhando de modo estranho para as duas mulheres – e sozinho.

- Você não pode me impedir de entrar na minha própria casa, Amico! – Narcisa puxou a varinha de dentro das vestes e apontou para o bruxo à sua frente. O homem apenas sorriu:

- Você é quem sabe, Narcisa. O Lord das Trevas não anda muito contente com os Malfoy ultimamente, não é? Faria melhor ao Draco se vocês duas – encarou Bellatriz diretamente – Ficassem aqui fora.

Bellatriz quase sacou a varinha também, mas controlou-se no ultimo instante. Um músculo em sua face tremeu, mas ninguém notou:

- Não seja estúpido, Amico. O Lord das Trevas nunca me negaria entrada em seus aposentos. Sou a maior, a mais fiel...

- ...Sei, sei – Amico interrompeu, com um aceno zombeteiro – A melhor, a única, etc... Quer saber? Por mim, você pode entrar e ver com seus próprios olhos. E você também, Narcisa. – disse ele e abriu caminho. Draco deu uma ultima olhada para trás e cruzou o portal. Narcisa guardou a varinha e o seguiu imediatamente, Bellatriz quase esbarrando no homem ao entrar.

“Você me paga por isso, Amico!”

“Adeus, Bellatriz. Foi um prazer lhe conhecer”. Amico sorriu e fechou a porta.




As três sombras seguiram por corredores decorados com suntuosidade, embora o pó já começasse a se acumular nos cantos. Subiram a escadaria e viraram à direita, dando de frente em outra porta enorme, onde ficava, em outros tempos mais amenos, o escritório de Lúcio Malfoy.

Draco e Narcisa hesitaram, mas Bellatriz avançou confiante e empurrou as portas duplas com ambas as mãos. Entraram os três.

A sala era uma mistura de local de trabalho e biblioteca: estantes imensas cobertas de livros iam do chão ao teto, deixando espaço apenas para a porta e dois janelões. Uma escrivaninha atulhada de pergaminhos separava os convidados do anfritrião.

- Milorde... – saudou Bellatriz, com humildade e em voz baixa.

O homem a quem se dirigia estava de costas, olhando pelas janelas sujas. O último raio de sol daquele dia agourento se fora e era difícil divisá-lo na sala, com suas vestes longas e negras. A parte mais visível de seu corpo era a cabeça – Uma nuca muito branca e sem pêlos, onde a pele parecia papiro velho.

- Estive observando sua chegada... – disse o homem, que se virou e encarou os visitantes. Seu rosto era uma máscara: Olhos oblíquos e vermelhos como os de uma serpente, e um nariz que eram apenas duas fendas, completavam o horror que ele emanava além do nome: Voldemort.

-...e ouvi por alto a discussão que tiveram com Amico. – Completou ele, olhando nos olhos de cada um, mas demorando-se em Draco.

“Tão superior... e mesmo assim, não passa de um inútil, como Lúcio... você merece morrer?”


I hate you and your apathy,
Odeio você e sua apatia

you can leave, you can leave, I don't want you here
Pode ir, pode ir, Não quero você aqui

I'm playing this pantomime,
Estou brincando de pantomima

but I don't see you showing any signs of fear
Mas não vejo você mostrar nenhum sinal de medo


“Não tenho medo de você... não tenho medo de você...”

Voldemort deu a volta com rapidez na escrivaninha e aproximou-se de Draco. O rapaz evitou recuar instintivamente, pois o homem sacara sua longa varinha, apontando displicentemente para o chão.

- Ora, ora, ora... O filho de Lúcio... – ele examinava Draco atentamente, ignorando as mulheres por completo.

- Milorde, foi tudo culpa de Amico! – tentou justificar Bellatriz – Se eu não tivesse insistido...

- CALE-SE!!! – bradou Voldemort – Acha mesmo que você teria sido autorizada a entrar, se eu não quisesse?

Bellatriz recuou chocada. Parecia ter sido afetada pelas palavras duras.

- Amico apenas fez o que eu lhe mandei fazer – continuou o bruxo – Barrá-las. Incitá-las. Assim eu poderia avaliar a sua lealdade.

- Minha lealdade, Milorde? – Bellatriz assustou-se ainda mais. – Mestre, deve saber que minha lealdade...

- Não a sua, Bella. Sei como você é! Um cachorrinho fiel e esperto, pronto para lamber ou morder, conforme minha vontade...


This time I'm for real,
Dessa vez é sério

my pain can not heal,
Minha dor não pode sarar

you will be dead when I'm through
Você vai morrer quando eu te pegar


Virou-se então para a mulher loira e completou - Não... Apenas a lealdade de sua irmã!

Narcisa ficou mais pálida do que já era. Será possível que ele soubesse?

- Vi você sacando a varinha, Narcisa. – acusou Voldemort – Teria coragem de atacá-lo?

- Mestre, eu... – gaguejou Narcisa, mas foi interrompida quando o bruxo levantou sua varinha própria e apontou-a para a testa dela.
- Porque EU teria! – garantiu o homem, com uma fúria crescente – Então com Lúcio preso e você morta, talvez eu pudesse confiar um pouco mais nos servos que me restassem...

- NÃO!!! – Draco gritou. Voldemort riu baixinho, e sem olhar para o rapaz, baixou a varinha. O menino empalideceu também.

- Realmente não, Draco, – garantiu o bruxo – tenho trabalho para vocês três.

Afastou-se novamente, e Narcisa pôde respirar aliviada. Ele voltou para detrás da escrivaninha, mas dessa vez espalhou os pergaminhos, procurando um em especial: abriu-o e leu.

- Temos planos de retirar Lúcio e os outros idiotas de Azkaban em breve – falou, para ninguém em particular. Momentos depois continuou, - Os Dementadores já debandaram, mas o Ministério permanece lá. Nossos aliados estarão fracos demais para viajar com magia. Vocês duas estarão na equipe de resgate, que voará até a prisão.

- Sim, Milorde – as mulheres concordaram em uníssono.

- Quanto ao nosso jovem Draco... Tenho um trabalho que pode lhe agradar – sacudiu a varinha num gesto indolente, e Draco se aproximou da mesa. Encararam-se mais uma vez.

“NÃO TENHO MEDO DE VOCÊ!”

- Sei que não tem, Draco – Voldemort respondeu à exclamação não-verbalizada, e o rapaz gelou – é isso que me levou a escolher você para essa missão.


Hate is what I feel for you,
Ódio é o que eu sinto por você

And I want you to know that I want you dead
Desejo que saiba que eu quero você morto

You're late for the execution...
Você estava atrasado para a execução...

If you're not here soon, I'll kill your friend instead
Se não aparecer em breve, Vou matar seu amigo em seu lugar


“Vai realizá-la graças à sua imensa coragem ou ao seu medo igualmente grande? Decida-se!”

A noite caíra por completo, e o silêncio que se seguiu durou quase uma eternidade. Foi Narcisa quem o quebrou:

- Milorde... Posso eu perguntar... Que missão seria essa?

Voldemort riu:

- Uma missão fácil, minha cara Narcisa. Uma missão muito fácil. Vai provar para mim que Draco é capaz de consertar os erros do pai, ao mesmo tempo que me prestará um grande serviço

Um sussurro de conversas pôde ser ouvido no andar térreo, mas Voldemort ignorou-o. Mantinha o olhar fixo nas reações do rapaz à sua frente.

- Draco deverá matar meu pior inimigo – concluiu.

- Harry Potter? – sussurrou Bellatriz, mas Voldemort a ouviu. Apontou a varinha para ela e gritou: “Crucio!”

A mulher caiu, seu corpo tremia com espasmos involuntários. E berrava a plenos pulmões.

Segundos depois (que pareceram uma eternidade a Bellatriz), o homem baixou a varinha e o silêncio voltou. A mulher arrastava-se no chão como um verme, seus cabelos negros como uma cortina encobrindo sua face.

- Nunca mais repita isso, Bella! – vociferou o bruxo – Harry Potter não é nada, ouviu? NADA! Eu mesmo cuidarei nele no momento adequado. Draco eliminará Alvo Dumbledore.

Narcisa, que estivera prestes a ajudar Bellatriz a se levantar, parou no meio do caminho: virou a cabeça rapidamente em direção ao Lord das Trevas. Draco estava igualmente pasmo.

- Sim, Draco! Alvo Dumbledore, o amante de trouxas! Alvo Dumbledore, o tolo que acredita no amor! Chegou a hora dele partir... Ah! E antes que vocês comecem a ter idéias – Voldemort emendou, com um sorriso ofídio e perigoso – Vou explicar os motivos que me levaram a escolher Draco para essa missão.

Ajudada pela irmã, Bella havia se levantado, embora balançasse precariamente, as pernas ainda bambas. As duas não tiravam os olhos de seu senhor...

E nem Draco.

- Primeiro de tudo... – enumerou Voldemort – Draco é estudante em Hogwarts, portanto, um espião válido infiltrado no seio do inimigo. Segundo, é bem capacitado em Oclumência, além de ser capaz de usar nossas...Armas.

“Terá coragem de usar uma Maldição Imperdoável, moleque? Pagaria pra ver isso!”

- Terceiro e último: eu quero que assim seja. Concorda com isso, Draco?

Os lábios do rapaz tremeram ligeiramente, mas sua voz era firme quando respondeu:

- Sim, Milorde.

- Ótimo! Estenda seu braço esquerdo.

Era o momento que ele mais almejava durante toda a sua vida. Já vira a marca em Lúcio, queria ser igual ao pai, e limpar o nome de sua família, trazer glória e honra para seu próprio nome. E um momento desses não deveria ser manchado pelo medo que tingia cada parte dele. Pela primeira vez considerou que, no fundo, talvez não quisesse ser um Comensal da morte. Pena que fosse tarde demais.

“Eu não tenho medo!”

- Seu braço, Draco – repetiu Voldemort.

Segundos de angústia...

“Me perdoe, mãe...”

“Sim, Draco, Sim!”

“Draco! NÃO!!!”

Um lampejo verde-esmeralda precedeu um grito de dor lancinante, seguido de uma gargalhada insana. Quando seus olhos entraram em foco novamente, Draco olhou para o ponto onde a varinha de Voldemort tocara seu braço. E ele viu.

A Marca Negra.


All the pain I feel,
Toda dor que eu sinto

couldn't start to heal,
Não pôde começar a sarar

although I would like it to
Embora eu quisesse


- Conhece as regras agora, Draco – Voldemort parecia decidido, por um momento deixara de ser frio e sarcástico – sabe aparatar?

- Sim... Digo, não muito bem, Milorde...

- Não importa. Você está dispensado de aparatar para cá quando eu tocar qualquer outra marca, já que é impossível fazer isso em Hogwarts.

- É, eu sei – confirmou Draco – a Granger...

- Não me interrompa! Como eu dizia, dispenso-o de aparatar aqui quando sentir a marca queimar. Só não tenho como dispensá-lo da dor.

“Dor?”

- Então, vá! – ordenou o bruxo – Creio que precise fazer... hum... Certos preparativos para seu ano letivo. E vocês duas – acrescentou, apontando para a mãe e a tia do garoto – podem ir também.

Draco estava assustado demais para sequer olhar a mãe, então saiu da sala o mais rápido que pôde. Narcisa o seguiu, e Bellatriz fez uma reverência para o Lord das Trevas, que estava novamente de costas para a porta.


This time I'm for real,
Dessa vez é sério

my pain can not heal,
Minha dor não pode sarar

you will be dead when I'm through
Você vai morrer quando eu te pegar


Saiu correndo da sala e conseguiu alcançar a irmã no topo da escadaria. A porta da frente estava escancarada.

- Draco – chamava Narcisa –Draco, volte!

- Cissa, espere!

- Me solte, Bella! – pediu a outra – Tenho que ir!

- Aonde vai, sua tola? – Bella perguntou – Draco está sozinho agora!

- Não vou atrás de Draco... Vou procurar ajuda... Vou procurar Severo Snape!

- QUÊ? Severo? Você é louca? Confia nele? – mas falou para as paredes; Narcisa desceu as escadas, correu até o gramado defronte à casa e desaparatou.

Sem pestanejar, Bella fez o mesmo. Os jardins da Mansão Malfoy ficaram novamente desertos, entregues a um luar tímido que se esboçava por entre as nuvens, e um vento frio que trazia consigo o aroma de alguma coisa doce e acre ao mesmo tempo:

Catástrofe.


FIM



Autor: Rodrigo

Um monte de lesmas

N/A: Gostaria de agradecer a todas as betas que se dispuseram a ler e comentar essa fic: Larctique, Marília Móvio, Suzi e Ferfa. Mas quero agradecer especialmente à Dark Angel, pelos momentos de risadas quando eu leio essa fic, agora. Ela sabe o porquê...




Eram cerca de oito da noite, e escurecera há pouco. Normalmente, Rony Weasley estaria encrencado por andar sozinho à essa hora pelos corredores de Hogwarts. Hoje, não faria diferença: ele já estava encrencado.

“Eu sou mesmo uma besta...” pensava ele, “Por que diabos eu fui inventar essa estória de carro voador... Olha só o Harry! Vai ficar umas duas horas com o Lockhart, respondendo cartas dos fãs...” Nesse ponto, Rony fez uma careta. Pensando bem, talvez seu castigo não fosse tão ruim assim.

Antes que pudesse perceber, já havia chegado à sala de troféus. Com um suspiro profundo, empurrou a porta e entrou, arrastando seus enormes pés. Argo Filch, o temido zelador da escola, já se encontrava lá.

– Ah, você! – resmungou ele, e acenou com um espanador. – Venha, seu pestinha, temos trabalho a fazer.

– Temos? – Rony ficou esperançoso.

– Na verdade, você tem. – Filch acrescentou, com um sorriso sombrio – Afinal, você é quem está detido.

O homem deu as costas e caminhou para um ponto no centro da enorme sala, cheia de taças poeirentas e brasões enferrujados. Uma nesga de luar penetrava por uma janela no alto, e incidia diretamente num tipo de armário baixo de vidro, lotado de escudos, medalhas e condecorações, todas descansando num forro de veludo vermelho.

A um sinal de Filch, Rony se aproximou. Antes de mais nada, viu, em cima do tampo de vidro, um frasco tamanho grande de removedor multiuso da Sra. Skower e uma flanela amarrotada. Mas não era isso que Filch apontava:

– Esses são os prêmios especiais por serviços prestados à escola. – esclareceu Filch – Por isso, tenha cuidado. Vou começar por ali, tirando o pó. Você vem em seguida e dá o brilho.

Rony riu:

– Brilho? Nesse ferro velho?

Mas Filch não gostou:

– Isso mesmo. E se não estiverem tinindo até o fim da noite, vou me encarregar de que sua próxima detenção seja com o Barão Sangrento.

Imaginando qual dos dois seria pior, Rony resignou-se. E já ia se afastando quando o zelador o chamou novamente:

– Um momento. A Profª. McGonagall me autorizou a confiscar sua varinha. Passe pra cá!

Corando violentamente, Rony sacou a varinha e a entregou.Ela emitiu um guincho agudo e soltou fumaça, a ponta quebrada balançando precariamente, presa apenas por um fiapo de fita adesiva. O garoto tentou justificar:

– Ela... Está meio estranha desde... Desde o acidente. Eu aconselharia ao senhor não tentar usá-la...

Então foi Filch quem ficou vermelho como um tomate, enquanto embolsava a varinha. Mas Rony não percebeu.




Duas horas depois, com o braço direito já doendo de tanto esfregar as pratarias encardidas, Rony teve completa certeza de que preferia o Barão Sangrento. Além dos costumeiros comentários asmáticos de Filch sobre como nos tempos do Prof. Dippet a palmatória era bem utilizada, mais chato ainda era ser chamado de “pivete imbecil” ou “adolescente inútil” de cinco em cinco minutos.

– ... E sonho com o dia em que eu vou dar uma lição bem-merecida naqueles seus irmãos insolentes! – Completou Filch, com um olhar furioso. Parecia capaz de aproveitar a presença de Rony para descontar toda sua frustração com os gêmeos.

– Não tenho culpa que eles desrespeitem os regulamentos! – Retrucou o garoto.

– Mas não pensou nos regulamentos quando atingiu o Salgueiro Lutador com aquele Ford do seu pai, não é? – O zelador acusou, enquanto tirava o pó de uma velha armadura, já cheia de marcas oxidadas.

– Não me orgulho disso – respondeu Rony, cabisbaixo – Mas já basta o berrador que minha mãe mandou, ainda tenho que ouvir você lamentar que aquela árvore maluca não tenha me amassado?

Filch riu pelo nariz, e continuou a limpar. Rony lembrou do desgosto que causara em casa, ainda mais quando comparado com seus outros irmãos: Carlinhos havia sido capitão da equipe de Quadribol, Gui fora Monitor-Chefe... E Percy agora era Monitor. Teria melhores chances se comparado a Jorge e Fred, mas nem isso lhe consolava: se continuasse nesse ritmo, poderia ser expulso. Aí seria o fim.

E na Floreios e Borrões? Todos olhando para Harry, quase o idolatrando... Certo, fora ele que dera um jeito em Você-Sabe-Quem, mas pra que tudo isso? Mione era outra que o fazia se sentir mal: sempre a melhor da classe, sempre a primeira. Será que ele ficaria eternamente à sombra dos irmãos e dos amigos?

– E onde você está, lindinha? – Filch chamava Madame Nor-r-ra, olhando para o chão e quase derrubando o elmo com o espanador. – Está escondida?

– Ela não está aqui. – garantiu Rony, infeliz.

– Bem, deve estar caçando alguns de seus amiguinhos arruaceiros, não é? – deixou o serviço pela metade e dirigiu-se ao outro lado da sala.

Chateado porque deveria tirar o pó que Filch deixara na armadura, Rony foi até o balcão de vidro, com a intenção de molhar novamente a flanela no removedor, mas seu olhar recaiu sobre os escudos guardados ali.

Eram realmente muito bonitos. Apesar da inegável idade, alguns ainda guardavam certa beleza venerável. Quando estava prestes a se afastar, leu o sobrenome “Weasley” num dos brasões.

Com seu estômago dando pulinhos, Rony afastou a tampa de vidro, mantendo um olho em Filch, que nesse momento se agachava penosamente à procura daquela gata enxerida. Meteu a mão dentro da caixa e tirou um velho escudo de bronze, onde se via claramente o nome “Septimus Weasley”.

– O Vovô Set! – Rony sorriu, – Caramba, nunca imaginei que ele havia ganhado um prêmio especial!

Deslumbrado com aquilo, o menino praticamente devorava o brasão com os olhos.
Porém, depois de um momento, a sensação de inferioridade se acentuou novamente.

“Mas que droga...” pensou, enquanto recolocava o escudo com cuidado no forro, sem que Filch visse que parara de limpar. “Vou ser o único da família que não vai ser lembrado?”

Então, com um solavanco na garganta e os olhos subitamente marejados de lágrimas, lembrou-se do pai.

“Ninguém se lembra dele” assustou-se Rony, quase indo ao desespero “No trabalho... Meus irmãos... Eu mesmo, não me preocupo se ele está bem...”

Era verdade. O Sr. Weasley trabalhava noite adentro para conseguir o minguado ganha-pão da família. Era ridicularizado entre os bruxos puro-sangue, motivo de piadas para os companheiros de trabalho no Ministério... E quase de vergonha para seus filhos...

“Não” Rony decidiu-se, “Papai é uma pessoa honesta. Se for para ser esquecido como ele, prefiro que seja”.

E sentiu novamente o solavanco na garganta, mas dessa vez nada tinha a ver com seus sentimentos em relação ao pai. Uma nova enxurrada de lesmas, resquícios do feitiço mal-feito que tentara lançar em Malfoy pela manhã subiu pela sua goela com um arroto, e caíram direto no armário com os prêmios especiais. Filch, com seus ouvidos treinados, percebeu:

– Moleque imbecil! O que você pensa que está fazendo?!?

– Foi sem querer... – Rony queria desculpar-se, mas outra golfada de lesmas o impediu. A maioria dos brasões estavam cheio delas.




– Falta esse aqui, Weasley – Filch apontou – O maior.

Uma hora de trabalho extra. Limpar e polir todos os prêmios especiais. “Bom, pelo menos eu agora sei o nome de um bocado de bruxos famosos...” tentou brincar, mas não conseguiu. Sabia que Hermione era a única que podia se sentir feliz por ler nomes como Alguma-coisa Dawlish, ou Glanmore Qualquer-coisa. Contentou-se com o fato de que, ao contrário da amiga, esqueceria deles em menos de vinte minutos.

Pegou o último escudo e aplicou-lhe generosas quantidades do produto de limpeza.

“Esse aqui é um tal de Riddle... Tom Riddle... vai ver foi um ótimo polidor de troféus...”




Duas da manhã, Torre da Grifinória.

“Querido Papai:

Eu sei que o senhor está bravo comigo por eu ter roubado o carro. Sei também que está enfrentando um inquérito no Ministério por minha causa. Minhas desculpas. Só lhe escrevi para garantir uma coisa: vou me emendar e tentar honrar o bom nome da nossa família, que apesar de pobre, ninguém dela anda chamando os outros por aí de Sangue-ruim, ou algo do tipo.

Diga à mamãe que a amo também, apesar do Berrador.

Ronald Bilius Weasley”


Autor: Rodrigo

Para entender Cedrico Diggory


A porta da "Gemialidades Weasley" abriu com um dobrar ensurdecedor de sinos de bronze, que ecoaram por toda a loja e por todo o Beco Diagonal como um anúncio de missa. Lino Jordan tapou os ouvidos com as mãos e procurou de onde vinha aquela balbúrdia.

Nesse instante, Jorge Weasley avançou de uma sala escura, com a varinha em punho. Ele gritou alguma coisa e um raio fino cruzou o ar, atingindo um enfeite de urso panda acima da porta. O silêncio se fez novamente.

– Que foi isso, cara? – perguntou Lino, com um ar chocado.

– Idéia do Fred... - respondeu Jorge, guardando a varinha – Vivo dizendo a ele pra consertar esse troço, ele acha muito legal...

– E é realmente legal. – interrompeu Fred, saindo de trás de uma estante, os braços cheios de caixas – Ele só fica louco assim quando detecta a entrada de bruxos medíocres na nossa loja.

– Vai se ferrar, Fred! – Disse Lino, rindo com os gêmeos.

– E aí, cara? Tá passeando e veio visitar os amigos? – perguntou Jorge, puxando uma cadeira para Lino se sentar rente ao balcão da loja quase deserta. Era início de setembro e as aulas em Hogwarts haviam recomeçado, deixando a “Gemialidades Weasley” e outras lojas do Beco Diagonal vazias, mais ocupadas com entregas por correio-coruja. Vera, a funcionária da loja, estava recebendo os formulários com pedidos numa sala no andar de cima. Fred usou a varinha para convocar três garrafas de cerveja amanteigada que estavam num armário e os três amigos começaram a beber.

– Bom, não vim aqui só a passeio. – continuou Lino, dando um gole em sua garrafa – Estou desenvolvendo uns projetos e quero que vocês me ajudem.

– Que projetos? – quis saber Fred, se sentando também.

– Quero escrever um livro. Sobre o Tribruxo.

– Ah, meu! Não gosto de falar desse torneio idiota. – Jorge reclamou, com um aceno de cabeça – Me traz más lembranças.

– É! – concordou o outro gêmeo – Primeiro o Bagman, depois a linha etária do Cálice de Fogo nos deu uma barba branca...

– Mas isso foi engraçado... – Jorge assentiu, pensativamente.

– Bom, foi! – Fred concordou – Mas no final de Junho, Você-Sabe-Quem voltou e ainda matou o Diggory... aquilo foi péssimo pro meu humor. Passei um mês sem ter nenhuma idéia pro Kit Mata-Aula...

– Falando no Diggory... ele é uma das pessoas que eu quero, tipo, fazer um perfil emocional. – Lino falou depressa – Sabe, o cara era um dos Campeões do Torneio.

– “Perfil emocional”? – riu Fred, olhando exasperado para o irmão, e Jorge continuou: - Qualé, Lino? Pra quê você precisa da gente pra fazer isso? Acha que somos um daqueles “Posogólogos” trouxas?

– É “Psicólogos”, Jorge. – o irmão corrigiu.

– Que seja. Não tenho jeito pra essas coisas.

Lino sorriu. Mas sabia que os seus grandes amigos acabariam ajudando e soltando a língua. Era só colocar as coisas do modo certo...

– Ok. Mas, me digam: por que vocês odiavam o Diggory, pra começo de conversa?

– Por quê? O cara venceu a Grifinória no quadribol! – justificou Fred, exasperado – Precisa mais?

– Mas tem mais. – garantiu o outro gêmeo – Ele venceu com Harry no chão! Foi uma covardia ao extremo, isso sim!

Um cliente abriu a porta da loja e um sino de volume normal soou. Jorge saiu da sala para atendê-lo e Fred se debruçou sobre o balcão, para se aproximar de Lino:

– Escute, eu sei o que o Olívio disse naquela época, que foi justo. Mas concorde comigo: poderia ter havido outra partida, ninguém disse que os Dementadores poderiam assistir ao jogo!

– Não me convenceu, Fred. – Lino sacudiu a cabeça e cruzou os braços – Diggory era um ótimo jogador de quadribol, e sei que vocês prezam isso em primeiro lugar. Além do mais, ele já morreu. Morreu há um ano. Conheço vocês, não sustentariam esse ódio tanto tempo.

Fred continuou calado. Lino desconfiava de alguma coisa? O amigo tinha aquela curiosidade insaciável, que algumas vezes trouxeram-lhes problemas. Certa vez, durante uma aula de Poções no segundo ano, ele misturara alguns ingredientes estranhos para “testar o efeito”, como ele mesmo disse. Resultado: uma explosão dos diabos, duas semanas de detenções e alguns miligramas de cuspe de Snape nas suas caras...

– Eu andei pensando... – Lino continuou.

– Jura? Desde quando? -– interrompeu Jorge, já de volta.

– ... e descobri que aconteceu algo no sexto ano que eu não presenciei. Naquele ano, depois dos N.O.M's, tanto eu quando vocês desistiram de algumas matérias. – Fred lançou ao irmão um olhar sinistro, e o riso sumiu do rosto de Jorge como um sorvete derretendo no calor. --– Sexto ano, o ano do Tribruxo. Cursamos matérias com alunos das outras casas. E a única matéria que vocês estiveram com Diggory sem minha presença foi...

– Trato das Criaturas Mágicas, certo... – concordou Fred. Parecia ter recuperado a voz. – E daí?

– O que aconteceu nas aulas de Hagrid? – Lino insistiu.

Jorge se mexeu inquieto e evitou o olhar do irmão. Tinha sido culpa de Fred, ele que se explicasse. Fred suspirou:

– OK, Lino. Vou contar. Mas peço que você me desculpe. E depois, tente convencer o Jorge a fazer o mesmo, ele ainda não conseguiu.

Lino colocou a garrafa vazia no balcão e esperou. Não sabia o que deveria desculpar, mas, se forçasse a explicação, poderia estragar as chances de ouvir a verdade. Por isso, esperou pacientemente.

– Cedrico Diggory – começou Fred – não era nada do que as pessoas pensavam. Era um trapaceiro!

-– Por que você diz isso? – Lino assustou-se – O próprio Dumbledore disse que Diggory era bom, leal e justo! De onde você tirou essa idéia?

– Porque eu vi, companheiro! E quando eu vi, não acreditei. Mas agora meus olhos estão abertos. – bateu a garrafa com raiva no tampo do balcão, com um ruído surdo. – Está pronto para abrir os seus?




O mês de outubro de dois anos atrás fora ensolarado, mais do que esperado por todos em Hogwarts. As últimas abóboras de Hagrid foram colhidas naquela mesma manhã, nos preparativos finais para a festa das bruxas e abertura oficial do Torneio Tribruxo. Fred e Jorge vinham conversando animadamente, junto com Angelina Jonhson, que acabar de colocar seu nome no Cálice de Fogo.

– Aquelas barbas estavam realmente bonitas, Fred. – disse Angelina, com um sorriso – Dumbledore tinha razão, vocês ficam melhores com elas...

– Nem vem, Angelina! – Fred parecia conformado – Concentre-se no Torneio, porque você é quem vai representar a Grifinória nele.

– Falando em barbas, olha só quem já está ali... – Apontou Jorge.

Alguns alunos da Lufa-Lufa pareciam afastados do resto do grupo. Um deles era Cedrico Diggory, o apanhador do time que vencera a Grifinória no ano anterior e que muita gente dizia que seria o Campeão escolhido pelo Cálice de Fogo na festa de logo mais à noite. Conversando com ele estava Rafael Summers, que também tentara enganar a linha etária de Dumbledore, mais cedo.

– Olha só aquele babaca... – Fred indicou Diggory com um aceno de cabeça -– Se achando o máximo porquê vai se inscrever no Tribruxo... eu queria que crescesse uma barba nele também!

-– Vai sonhando... – o outro gêmeo fechou a cara – Ele já fez 17. E mesmo assim, não estou vendo nenhum sorriso naquele rosto. Ele parece meio... indeciso, sei lá!

– Que nada! – teimou o irmão – Ele está é com medo, o covarde. Não tem tutano!

Jorge franziu a testa para o irmão. Entendia o motivo da animosidade, mas achava que Fred estava pegando pesado demais.

– Sério, Jorge. Se ele for escolhido Campeão de Hogwarts, eu juro que pego minha vassoura e caio fora daqui!

– Caramba, boa idéia essa! – Jorge arregalou os olhos, um ar brincalhão no rosto – Desencana, Fred. Pode ser pior, o Warrington se inscreveu também.

– Vocês são impossíveis! – Angelina riu e se afastou dos dois.

– Muito engraçado... – Fred se aproximou do cercado, tentando escutar o início da aula de Hagrid sobre os crupes, espécie de cão terrier com duas caudas. Mas sua atenção foi desviada por uma risada alta de um dos companheiros de Diggory. O apanhador lançou um olhar pressuroso para os gêmeos e disse alguma coisa em voz baixa. Aquilo foi a gota d’água para Fred. Puxou um fio cor de carne do bolso das vestes, enfiou uma das pontas no ouvido e jogou a outra, que parecia uma orelha, em direção aos alunos da Lufa-Lufa. A orelha falsa pareceu ganhar vida e deslizou sorrateiramente. Jorge viu e sussurrou:

– Fred! Orelha extensível! Você sabe que não está pronta, é um protótipo!

– Sei que não está pronta! – sussurrou Fred em resposta. – Fica quieto, quero tentar ouvir do que eles estão rindo! E acabei de ter uma idéia...




– E o que era, afinal? – perguntou Lino, curioso.

– Uma coisa... bem... – tentou explicar Fred, parecendo confuso. – Injusta. Definitivamente injusta.

– Ele estava pedindo pro Summers convencer alguns alunos da Lufa-Lufa do 7° ano a colocar o nome de Cedrico ao invés dos deles próprios. – Jorge revelou. – Summers estava tentando fazer isso naquela manhã, usou um Confusus na linha etária, mas como sabemos, não deu certo também...

– Mas que droga! Pra que o Diggory queria tanto entrar nesse Torneio? – Lino estava chocado. Nunca imaginou que Cedrico faria uma coisa daquelas.

– Ele disse. Mas não acreditamos. Era simplesmente impossível!

– Pensamos que Diggory estava delirando, ou mentindo, e não ligamos. – Fred afirmou, enrubescendo – Mas aí, a gente pegou um crupe sem Hagrid ver, fomos pra Floresta Proibida e então...




– Fred! Jorge! – chamou Hagrid com um grito – onde e que vocês pensam que vão?

Os gêmeos estavam rindo à beça, enquanto amarravam o crupe numa árvore, bem longe dos demais alunos. Pretendiam examinar o bicho com as varinhas, esperando encontrar alguma habilidade mágica interessante que servisse para compor um dos doces do Kit Mata-Aula. Foram interrompidos no meio da travessura por Rúbeo Hagrid, que avançou da clareira para a Floresta Proibida em busca deles.

– Aprontando alguma, eh? – o meio-gigante sorriu complacente – Vamos voltar, se vocês fizerem algo errado, vou ter que punir vocês.

– Ah, qualé, Hagrid? -– Jorge reclamou – Vai dizer que esse bicho não tem nada além desses dois rabos?

– É, você falou e falou, mas não disse o que ele faz! – Fred deu um nó bem apertado na corda e olhou para o professor.

-– Mas eu já disse, ele não faz nada! – Hagrid afirmou, com um ar cansado. Tentou desamarrar o bicho, mas acabou partindo a corda. Desconcertado, ele começou a puxar o crupe de volta à clareira em frente à sua cabana, Jorge e Fred no seu rastro.

Nesse momento, uma forma imensa saiu de trás de uma árvore. O corpo baio, a pelagem luzidia e castanha. Um tronco saindo da parte superior. E um rosto.

Um rosto feroz.

Fred e Jorge deram um pulo para trás, assustados. Nunca tinha visto um centauro tão de perto, apesar de saber da existência de um rebanho deles perambulando pela floresta. Sabiam também que seriam castigados (pelos professores ou pelos próprios centauros) se fossem pegos sozinhos fora dos limites permitidos. A coincidência é que tinham acabado de ouvir falar em centauros. Será que...?

– Ah, é você, Firenze! – Hagrid pareceu aliviado – Não se preocupem, garotos, é só o Firenze, ele é meu amigo.

– É com esses alunos que eu quero falar, Hagrid – a voz de Firenze era limpa e direta; parecia um sopro de vento cortante. E não tirava aqueles olhos penetrantes dos gêmeos.

Os garotos deram involuntariamente um passo para trás e, antes que Hagrid pudesse reclamar, Firenze se aproximou e falou:

– Só vou dizer isso uma vez: não tentem interferir no destino do menino Diggory. O que vocês ouviram é verdade. Saiam do caminho do destino, ou ele acabará atropelando quem se intrometer! – dito isso, se virou e voltou para a floresta fechada, a galope.

– O quê? Que destino? Firenze, volte aqui! – o professor gritou, mas foi em vão. O barulho de cascos morreu na distância e Hagrid encarou os meninos, parecendo furioso:

– Podem se explicar!

Engolindo em seco, os gêmeos se entreolharam. Não tinha saída, a não ser uma mentira imensa...

Ou a absurda verdade.

– A gente... ouviu Diggory pedir aos amigos que o ajudem a ganhar a vaga no Tribruxo – Jorge começou.

– Ajudar? Ajudar como? – perguntou Hagrid. – Ele já está inscrito, não? Ele pode se inscrever sem problemas e...

– Ele ainda vai se inscrever, mas quer mais de uma chance para ganhar. – Fred interrompeu – Quer que outros alunos maiores de idade coloquem o nome dele no Cálice. E disse que foi o tal do centauro seu amigo que o mandou fazer isso!

– É! O centauro disse a ele que “haveria obstáculos no caminho, mas ele deveria impedir que uma pessoa errada fosse a escolhida”. – concluiu Jorge – Isso é trapaça, não?

Hagrid riu a valer, e os irmãos estranharam aquela atitude diante de uma coisa tão séria. O meio-gigante gargalhou e continuou a andar, os gêmeos quase correndo para acompanhar suas passadas.

– Meninos, não é assim que funciona! Tanto faz você colocar o nome uma vez quanto mil; o Cálice escolhe pela qualidade, não pela quantidade! – isso pareceu desconcertar os dois. Mas Jorge ainda perguntou:

– E como você tem tanta certeza, Hagrid? Quem foi que lhe disse isso?

– Ninguém. Eu sei. Me inscrevi clandestinamente no último torneio antes desse, então... – Hagrid pareceu corar e tentar desconversar, mas o estrago estava feito. Aquelas palavras acenderam uma luz na cabeça dos dois maiores bagunceiros da escola:

– Caramba, Hagrid! Conta aí, como você fez isso? – pediu Fred, fervorosamente.

– Esqueçam o que eu disse, vocês dois. Não funcionaria mais. – continuou, em voz baixa. –Naquele tempo, Dumbledore ainda não era o diretor.

Os três começaram a se aproximar da orla da floresta, Fred e Jorge ainda bastante pensativos sobre tudo que ouviram. Fred sentia com se alguma coisa tivesse lhe escapado... mas o barulho crescente tirou sua atenção.

– E vocês dois têm que parar com esse negócio de ficar me desobedecendo. – o professor baixou a voz, temendo ser ouvido pelos outros alunos que aguardavam na clareira – Gosto muito dos dois, mas se eu continuar fechando os olhos pras traquinagens que vocês fazem, vou arranjar problemas.

– “Traquinagens”, Rúbeo? – Jorge riu – Isso é do tempo da minha avó!

Os três riram e alcançaram o resto da turma, que se debruçava no cercado sobre os animais restantes.




– Quer dizer que vocês planejavam inscrever Cho Chang no torneio, ao invés de Diggory? – Lino estava completamente surpreso.

– Isso. – confirmou Jorge, com pesar. – Queríamos pregar uma peça no Dumbledore, no Bagman e no resto dos organizadores. Pensávamos que o Crouch desceria do salto se um menor de idade se inscrevesse no Tribruxo. E era perfeito pro nosso verdadeiro propósito: todo mundo sabia que ele era gamado nela, não despertaria desconfiança.

– E também tiraria o Diggory da parada. – Fred continuou -– Nós nos encarregamos de tudo. Azaramos os caras que ele escolheu para colocar o nome dele; Eles esqueceram de colocar o papel e foram jantar.

– E Cedrico? – quis saber Lino.

-– Fred pegou-o na saída da aula de Hagrid. – explicou Jorge – Colocou um pedaço de pergaminho com o nome da Chang no bolso dele e o confundiu também. Ou seja, nenhum papelzinho escrito “Cedrico Diggory – Hogwarts” deveria ter entrado no Cálice. Maaaas...

– Mas Diggory virou Campeão da escola. – Lino completou – Foi escolhido, competiu e morreu no labirinto. Como? O que deu errado?

– Não sabemos. – garantiu Fred, encolhendo os ombros. – Mas não importa mais, não é? Eu errei. Deveria ter posto meus princípios de lado e avisado um professor que acreditasse em mim. Hagrid bebeu um barril de quentão naquela noite, remorsos também.

– Esquece isso, você não poderia ter feito nada. – consolou o irmão – Mas também não deveria ter se metido. Eu lhe avisei.

– Por que está dizendo isso, Jorge? – quis saber Fred.

– Não sei, estou com um mau pressentimento...




Cedrico Diggory estava escondido numa sombra da escadaria do saguão principal deserto, iluminado apenas pela luz mortiça que emanava do Cálice de Fogo. A maioria dos alunos já se encontrava no jantar que revelaria o nome dos três Campeões que disputariam a Taça Tribruxo. Mas Cedrico esperava por uma pessoa, aquela que motivara sua vinda até ali.

De repente, duas outras sombras avançaram até a luz e pararam no limiar da linha etária traçada no chão. A sombra menor incentivou, e a maior entrou no círculo e depositou um pedaço de pergaminho no cálice, que ardeu em chamas vermelhas e consumiu completamente o papel. As duas afastaram-se lentamente, Cho Chang agradecendo efusivamente a amiga por ter posto seu nome no cálice, coisa que ela própria não poderia fazer, pois era menor de idade.

Quando as duas garotas sumiram, Cedrico saiu da penumbra e pôs a mão no bolso das vestes. Esperava encontrar apenas um papel, mas puxou dois. Num deles estava escrito seu próprio nome, com sua letra. No outro, uma letra garranchosa escrevera “Cho Chang – Hogwarts”. Ele sabia o que queria: viera colocar o nome de Cho no cálice, não?

Não?

Algo em seu íntimo se partiu, e as palavras do centauro, que encontrara por acaso na floresta, pareceram ressoar em seus ouvidos, como tivessem acabado de ser ditas:

“Os inocentes serão os primeiros a serem sacrificados”.

“O lugar dela não é o torneio”.

“Haverá obstáculos no caminho, mas você deve impedir que uma pessoa errada seja a escolhida”.

“Consiga amigos que coloquem seu nome no Cálice, por precaução. Os inimigos dificultarão sua tarefa”.

“O destino é uma serpente que engole a si mesma”.

Cedrico olhou em volta. Seus amigos não vieram. E Cho já depositara o nome dela. Mas ele tinha que pôr o nome dela no Cálice. Foi para isso que viera aqui essa noite.

Não foi?

Ele riu, e seu riso pareceu ecoar pelo saguão vazio. Amassou o papel com a letra desconhecida, cruzou a linha etária e depositou o outro papel. O nome “Cedrico Diggory” ardeu por alguns instantes antes de sumir. Ainda rindo, ele foi jantar, despreocupado e em paz consigo mesmo.

Fizera a coisa certa.




Rúbeo Hagrid chorava copiosamente, agarrado a um grande garrafão de quentão. Sentara-se à soleira da porta de sua cabana, e olhava para o castelo que era sua casa desde os onze anos. Não acreditava que Cedrico morrera, era um menino tão bom! E Harry quase morrera também, duas vezes no mesmo dia!

Estava ali, completamente sozinho e desconsolado com todas as coisas terríveis que ocorreram desde que os Campeões entraram no labirinto. Mas um lento tropel de cascos lhe informou que logo teria companhia...

– Diggory fez a coisa certa, Hagrid. – Firenze surgiu e bloqueou a luz suave que vinha do castelo adormecido.

– VOCÊ! – vociferou Hagrid, pondo-se de pé com dificuldade – Sabia que você vinha, seu traidor! Você instigou Cedrico a se inscrever, não? Você é o culpado por ele estar morto!

Firenze continuou impassível. Sua cauda longa balançou com o vento e ele olhou para o céu, ao mesmo tempo em que seu dedo indicador apontava para cima.

– Não escrevo o movimento das estrelas, Hagrid. Apenas leio o que está escrito nelas. Os inocentes primeiro. Depois os outros.

– Não me importo com suas estrelas! – O meio gigante continuava a gritar, os pés oscilando.

– Ele não ia participar. – Firenze baixou o olhar e explicou, o que deixou Hagrid mais furioso ainda – E se ele não participasse, a menina seria escolhida e morreria.

– Mas ele também morreu! Que diferença faz isso para suas estrelas? Eram inocentes, os dois!

Firenze deu mais uma olhada no céu estrelado. Demorou por um instante e depois voltou a fitar os olhos furiosos do seu amigo. E disse:

– Não sei. Temo que o destino não esteja satisfeito com apenas uma morte. Ele não gosta de ser atrapalhado nos seus desígnios. Mas eu avisei. O destino pode atropelar os intrometidos, não se esqueça. Boa noite, Hagrid.

O centauro partiu, e deixou em Hagrid uma impressão de desgraça iminente. Ele não gostava desse negócio de destino. “Atropelar... quem era que o destino ia atropelar mesmo?” O excesso de quentão não o deixava pensar direito. Desistindo, fechou a porta e foi dormir.

Firenze olhou por um instante para a porta fechada. Olhou pela terceira vez para o alto, seus olhos buscando alguma coisa que ele sabia que estava faltando. Murmurou consigo mesmo:

– Eu entendo. Sim. Um dos dois. Mas qual?

Foi embora sem olhar pra trás.

FIM




N/A: A trilogia continua em “Para entender Fleur Delacour” e “Para entender Vítor Krum”, em breve...


Autor: Rodrigo

Alvo Severo e o Segredo da Víbora (Capítulo 16)

Capítulo XVI – A câmara secreta


Após o seqüestro, Alvo se deu conta que a locomotiva atrás de si começava a fumegar, iria partir. A próxima coisa que conseguiu enxergar foi sua prima, Rose chamando-o, muito nervosa.

- Alvo, entra no trem, estamos partindo! – gritava ela para o primo.

- Não posso! Minha irmã! Aquela mulher horrível...

- Meu irmão também foi pego, mas precisamos ir para a escola - Rose chorava, olhando para a mãe histérica na plataforma. Hermione xingava a seqüestradora a altos berros, no meio da aglomeração de pais assustados.

Alvo cedeu e entrou no trem, com a prima. Seus amigos não estavam lá, provavelmente o esperavam em alguma cabine.

- E agora? – perguntava Alvo para uma chorosa Rose, que não parava de andar, quase tão histérica quanto à mãe.

-Nossos pais vão prender a desgraçada, e Hugo vai ser salvo. – respondia ela entre os dentes. – E Lily, é claro.

- Bom, vou procurar meus amigos, eles devem estar por aí – disse Alvo. Não tinha mais o que conversar com Rose.

- Alvo, será que nem assim você consegue enxergar? – disse a prima, impedindo Alvo de se retirar.

- O quê? Como assim, enxergar o que? – perguntou Alvo, não muito humorado.

- Alvo, você vai me ouvir, agora. – disse ela decidida, conduzindo o garoto confuso para uma cabine próxima.

Ao abrir a porta, Rose revelou uma cabine ocupada por um garoto e uma garota: Colin e Patrícia, os dois melhores amigos da garota.

- Eu não vou me juntar a vocês, se é isso que você quer, Rose. – rosnou o sonserino, entre os três grifinórios.

- Calma Al, só queremos conversar com você – disse o menino de cabelos castanhos e baços – se você quiser sair depois, nós não vamos te prender.

Alvo entrou na cabine e se sentou sem discutir. Em algum lugar, os seus amigos o esperavam.

Rose, Patrícia e Colin fitavam o sonserino como se ele fosse alguém muito interessante; e pareciam não saber quem deveria começar.

- Alvo, nós temos de te contar algumas coisas que você deveria saber antes de se juntar com certas pessoas. – começou a prima.

- Ah não. Pensei que tinham algo de importante a me dizer, e vocês querem é começar a falar mal dos meus amigos? Dá licenças, vou-me embora. – disse, se levantando. No entanto, uma mão o segurou pelo ombro.

- Al, você vai ouvir! – disse Colin, impedindo Alvo de deixar a cabine.

- Está bem, eu vou ouvir. Não vou fugir, agora me solte – respondeu o sonserino, se desvencilhando do outro garoto.

- Para começar, vou te falar algumas verdade sobre o seu tão adorado amigo. Malfoy. – disse Rose, ignorando as caretas de Alvo – Você sabia que Draco Malfoy era inimigo do seu pai?

- E desde quando isso me importa? – falou Alvo um tanto grosseiro. – Isso é problema dos dois, Corp e eu não temos nada a ver com isso.

- Se era inimigo do seu pai, é porque não presta, Al! – disse Rose teimosa – Quantas pessoas boas são inimigas de seu pai?

- Ah, francamente Rose, vou-me embora. – falou Alvo, tentando se levantar mais uma vez e mais uma vez sendo impedindo por Colin. Patrícia estudava atentamente o garoto por trás dos cabelos escuros.

- Espere Al. Se você não quer saber de Malfoy tudo bem, - falou o grifinório empurrando Alvo para o assento - mas precisa saber quem é Lestrange.

- Alvo, você se lembra de Belatriz Lestrange? Seu pai provavelmente já a comentou. – perguntou Rose.

- Não. – mentiu Alvo. O garoto sabia que se tratava de uma comensal da morte que morrera a muitos anos atrás.

- Alvo, essa mulher foi assassinada pela vovó, na Guerra de Hogwarts. – explicou Rose – Ela era uma das mais fiéis servas de Voldemort, e chegou a duelar com sua mãe. E com a minha também.

- Então está explicado. Belatriz Lestrange não tem nada a ver com Lysa. – disse Alvo, em tom de conclusão.

- Não Al, não é tão simples assim – continuou Colin – Belatriz tinha um marido, Rodolfo Lestrange, que foi assassinado por meu pai. E a gente andou pesquisando sobre tudo isso, e descobrimos que há mais um Lestrange. Só mais um. Rabastan, irmão de Rodolfo e cunhado de Belatriz está vivo, e tudo indica que está trancafiado em uma cela de Azkaban.

- E vocês acreditam que Rabastan é pai de Lysa. – concluiu Alvo finalmente, pensativo.

- Exatamente – falou Rose, segurando um sorriso enviesado.

- Querem saber a verdade? – falou Alvo menos satisfeito do que nunca – Asneira. Tudo asneira de vocês. E sugiro que parem de colocar asas em Rês-ma, porque não vão conseguir me separar de meus amigos. Meus verdadeiros amigos são eles, e nada vai mudar isso.

- Eu não pensaria isso se fosse você Alvo Severo – Patrícia disse, ainda estudando Alvo muito atentamente. Estava calada até o momento, e uma aura obscura cercava a cabine. A voz de Patrícia estava um tanto etérea, e ela parecia querer impressionar pelo tom.

- O que você está dizendo? Você me conhece, por algum acaso? – perguntou Alvo, se enfurecendo com a garota.

- Alvo, será que você não entende? Você é filho de Harry Potter! – zangou-se Rose – Existe gente que adoraria te fazer mal. E os Lestrange são gente assim. A filha provavelmente é só um meio para chegarem em você.

-Rose, eu não vou mais ouvir suas besteiras, pra mim acabou – Alvo se levantou para se retirar, e desta vez não foi impedido, porém, parou para ouvir as últimas palavras da prima.

- Tudo bem Alvo, então eu vou apelar para a última saída. – disse a garota com ar de superioridade - Vamos comunicar seu pai do que está acontecendo, e tenho certeza que ele não vai permitir essa situação.

- O que? Você não seria capaz...

- Pode apostar que seria. E você tem idéia de qual seria o resultado de tudo isso?

- Você não vai fazer... – relutou Alvo, sem cerimônia.

- O resultado – cortou a prima, fazendo Alvo calar-se – será que seu pai vai abrir investigação contra a maldita víbora, e ela vai acabar definhando em Azkaban.

Alvo se retirou da cabine sem dizer nem mais uma palavra, e foi atrás de seus amigos.





Alguns minutos mais tarde, Alvo encontrou seus amigos, na última cabine do trem. Scamander e Malfoy conversavam animadamente, em contraste com uma tristonha Lysandra, recostada à janela.

- Você não morre mais, Al! Acabei de sugerir ao Corp para te procurarmos – disse Ana, deslizando para o canto da cabine para oferecer espaço para o amigo sentar.

- Vocês não sabem, não é mesmo? – perguntou Alvo aos amigos, fazendo o rosto de Lysandra virar-se de curiosidade. – Do que ocorreu com a minha irmã.

- Sua irmã? Não, não sabemos – respondeu o loiro. Seu semblante de descontração acabou rapidamente, encarando o amigo que estava muito sério.

- Minha irmã foi seqüestrada, juntamente com meu primo, Hugo. Por ninguém mais nem menos que Umbridge.

- Dolores Umbridge, a fugitiva? – perguntou a garota loira, muito espantada – Como assim? Como se atreveu a seqüestrar a filha do chefe da Seção dos Aurores? Minha mãe me contou tudo sobre essa mulher, ela é horrível.

- Bom, não acho que ofereça tanto perigo. – adicionou Malfoy mais calmo do que os outros dois.

- O que? Uma mulher que foge de Azkaban e seqüestra garotinhas por aí é o que então? – descontrolou-se Alvo. – Você não está nem aí, não é mesmo Escórpio? Lembro-me muito bem de que seu avô defendeu Umbridge no julgamento. É isso. Você deve achar divertido conhecer alguém que tem sua irmã seqüestrada. Você...

- Ei, Al! Pára com isso! Eu sou seu amigo, sou o Corp, nunca desejaria mal à sua irmã. – Escórpio estava indignado com a ação do amigo. – Simplesmente acho que Umbridge não é tão perigosa.

- Olha Al – começou Ana, tranqüilizando o amigo - , não sei o que sua prima andou dizendo para você, mas acima de tudo, nós somos os seus amigos, e estamos ao seu lado.

- Eu... eu... err... eu sei que são meus amigos, mas...

Ao desistir de tentar bolar a desculpa, Alvo reparou que a outra garota tentava esconder o rosto, olhando para fora da janela. Indiscutivelmente, uma lágrima sorrateira descia pelo seu rosto fino e ferido, e o garoto acabou conduzindo a atenção dos outros para Lysandra.

- Lysa, acho que mais cedo ou mais tarde, você acabará conversando com a gente – disse Escórpio, inesperadamente.

A garota não resistiu, e teve de levar as mãos ao rosto, ocultando o choro reprimido. Mechas de cabelos negros e luzidios tentavam inutilmente ocultar seu rosto.

- Eu sou fraca. É isso que eu sou. – grunhiu a garota penosamente – Não mereço vocês como amigos.

- Lysa, vocês não é fraca. Ei, você é a Víbora! – consolou Alvo. Ana parecia recear as palavras, não sabia como ajudar a amiga -Não repita isso na nossa frente. Você só teve a desgraça de nascer onde nasceu. E isso não diminue o seu valor de modo algum.

Alvo não sabia como, mas agora podia aceitar o que acabara de dizer. Odiou-se, por um único segundo por ter ouvido as palavras de sua prima, e agora tinha certeza de que podia confiar em Lysa. Mais do que isso, tinha de ajudá-la, apoiá-la, estender a mão. Nunca mais poderia dar ouvidos a Rose, e não a perdoaria por tentar destruir sua amizade.

A próxima coisa que Alvo sentiu, foi o lançar de braços sobre seus ombros, não somente de Lysandra, mas também de Anastácia e Escórpio. Ficaram alguns instantes do mesmo modo. Seus braços cruzavam os pescoços uns dos outros, e as cabeças recostadas, os quatro amigos juraram lealdade um ao outro. Lealdade essa, que seria maior do que qualquer acusação sem fundamento de Rose ou qualquer outra pessoa que tentasse quebrar o forte laço que os envolveu naquela tarde, ao sol nublado e insistente do meio-dia.




Hogwarts ficou muito mais divertida com a aproximação dos amigos. Os três primeiros dias na escola foram realmente divertidos e agitados. O grupo curtia as tardes frias nos jardins da escola, ora falando mal dos professores, ora fofocando uns dos outros. Rose deixou definitivamente de ser assunto pelo grupo de Alvo, e os três estavam muito satisfeitos desse modo.

No entanto, as aulas começavam a exigir mais, e o tempo de lazer começava cedo a cessar, e logo os quatro começavam a freqüentar a biblioteca, com todas as pesquisas que tinham de fazer sobre transfiguração de objetos rochosos, sobre poções para retirar cravos e espinhas, sobre os principais representantes do Conselho de Astronomia de 1152, e...

Sobre um dos ramos mais fascinantes e complexos da Transfiguração. A animagia virou tema de discussão entre a turma não só de Alvo, mas o primeiro ano em geral. Certa vez, Alvo viu um gato circulando por um corredor do quarto andar. Não era madame Nor-r-ra, não podia ser, pois havia marcas muito escuras em volta dos olhos, então, ao dobrar um corredor, Alvo reconheceu imediatamente o gato. Tratava-se da diretora, que era a única animaga que o garoto chegara a conhecer. Tinha vontade de perguntar sobre a transformação para a professora McGonagall, mas faltava-lhe coragem.

Em outra ocasião, ao saírem de uma chata aula de História da Magia (não tão chata para Anastácia), Alvo e Escórpio foram direto à biblioteca, para cumprirem as tarefas que entregariam na próxima aula (“Redija um texto em 30 cm de pergaminho sobre feitiços embelezadores na Grécia Antiga”), então, Alvo não pôde deixar de reparar que o local estava vazio, exceto pela bibliotecária e um garoto da Corvinal que Alvo não conhecia. Anastácia e Lysandra não acompanharam os garotos porque ficaram discutindo a matéria com a professora Skeeter, mas iriam aparecer mais tarde.

Os dois amigos se sentaram não muito distantes do outro garoto, solitário, e logo começaram a tirar os pergaminhos e resmungar da dificuldade da redação.

- A professora Bones passou uma tarefa muito mais simples para a Lufa-lufa! – protestou Escórpio, desconcentrando a leitura do amigo.

Então, a voz do garoto corvino foi logo ouvida de trás de Malfoy.

- E vai ficar muito mais complicado se vocês não procurarem informação nos livros certos!

O garoto levantara-se de sua mesa, e se aproximava dos dois com um pouco de receio.

- Ah! Olá! Você é da Corvinal né!? – disse Malfoy, estudando o garoto.

- Sou sim! Meu nome é Alex, prazer.

- E então Alex, você conseguiu fazer a redação da Bones? – perguntou Alvo, animando-se. Era óbvio que o garoto conseguira, já estava guardando seu material.

- Acabei de terminar, vocês precisam de ajuda? – disse Alex, prestativo.

- Senta aí! – falou Malfoy imediatamente.

Os dias se passavam, e as tarefas aumentavam numa certa proporção por matéria. Foi mais de uma vez que Alex ajudou Alvo e seus amigos com as tarefas complicadas de defesa contra as artes das Trevas, e o amigo se mostrava um colega muito presente. Alex não andava muito com os colegas de casa, e, sempre que podia estava atrás de Alvo e Escórpio.

Em geral, Malfoy era o que mais procurava o garoto para resolver os exercícios, e Alex não negava pedidos. Às vezes Alvo se incomodava com isso, porque lhe passava uma impressão que Escórpio tinha uma amizade um tanto interesseira com o garoto, mas Alex estava muito satisfeito.





Ao sair da aula de astronomia, na quarta-feira, depois de cinqüenta minutos de devaneios da professora Leavitt, Lysandra fez uma coisa que impressionou bastante os amigos. Tocou num assunto que evitava acima de tudo. Sua situação com os pais. Havia comunicado que precisava ter uma conversa séria com os amigos, mas Alvo nunca imaginara que fosse sobre isso.

Alguns instantes depois de deixarem a Torre de Astronomia, o grupo estava reunido num cubículo secreto que descobriram atrás de um espelho do quarto andar. Lysandra pestanejou para começar, mas não demorou muito.

- Preciso falar com vocês algumas coisas. Não vou voltar para a casa. Nunca mais. E preciso de algum lugar para ficar.

- Você quer fugir de casa? – falou Ana primeiramente - Talvez não seja muito sensato, Lysa.

- Eu concordo plenamente com ela – contrapôs o loiro – O que Lysa nos contou sobre seus pais é o suficiente para aceitar a idéia.

- Não é tão simples, Corp. Fugir tudo bem, mas se esconder de alguém é complicado. – retrucou Ana, decidida.

- Eu concordo...- começou Alvo - com o Escórpio e a Lysa. Podemos procurar algum lugar para Lysa se esconder.

- Preciso dizer para vocês que não vai ser fácil, e precisarei de ajuda – falou Lysa lentamente – Não é fácil se esconder deles. Eles vão me achar em qualquer lugar.

- Não conhecemos muitos lugares bons, não é mesmo? – perguntou Ana, tentando concluir a impossibilidade do caso.

- Aháh! – exclamou Alvo, surpreendendo a todos – Errado, minha cara Anastácia. Vocês não conhecem. Eu conheço.

- O que? Não há lugares seguros, Al. – contrapôs mais uma vez a garota - Estamos falando de se esconder de bruxos que conhecem as Artes das Trevas. Não é qualquer casinha por aí que vai nos servir. Se quiser saber, só considero realmente seguros, dois lugares. Gringotes e Hogwarts.

- Exatamente, Ana! – exclamou o amigo – Não sei nada de Gringotes, mas conheço Hogwarts melhor do que qualquer um de vocês. Não é a toa que sou neto de um maroto – adicionou o garoto, admirando as carinhas curiosas dos amigos.

- Maroto? Que é isso? – perguntou Malfoy, sem entender.

- Os marotos foram um grupo de quatro alunos, que formularam um mapa impressionante de Hogwarts. Vocês têm que conhecer o Mapa do Maroto... Mas isso não vem ao caso... ainda. Eu posso garantir que conheço algumas localidades na escola muito secretas.

- Localidades? – perguntou Ana, tentando entender.

- Sim. Eu vou sugerir algumas, que meu pai já me contou. Há a Sala Precisa, que só se revela pra quem realmente necessita dela. Mas esta, acho que foi destruída na Guerra de Hogwarts, anos atrás. Há também, a Casa dos Gritos, cuja entrada está dentro de uma árvore nos jardins. E, por fim, tem a Câmara Secreta, de Salazar Slytherin.

Os olhos de Lysandra brilharam ao ouvir o nome de Slytherin, e Alvo percebeu instantaneamente a excitação da garota.

- Sério mesmo? – perguntou ela imediatamente – Você conhece a entrada da lendária câmara secreta?

- Sim! – respondeu Alvo sorridente. Porém, logo se desanimou.

- Isso é simplesmente perfeito! – exclamou Lysa.

- Não! Não é! – Ana agora interrompia a alegria da amiga em tom conclusivo. – Há uma condição para entrar na câmara. Tenho certeza de que Al sabe qual é. Para se entrar na câmara secreta, deve-se falar a Língua das Cobras. Slytherin era ofidioglota, e esse dom era hereditário.

- Voldemort era ofidioglota! – falou Alvo, provando que conhecia bem o assunto – E meu pai também foi, antes de tê-lo destruído.

- Não há problemas, pessoal. – explicou a garota ainda contente, embora misteriosa - Talvez eu devesse ter contado isso há algum tempo atrás, mas eu tenho que revelar.

Lysandra abriu um largo sorriso, e falou:

- Eu sou ofidioglota. Eu posso entrar na Câmara Secreta.

Alvo Severo e o Segredo da Víbora (Capítulo 15)

Capítulo XV – A Prisioneira de Azkaban


Mais um sol clareava a nublada manhã em Cedric’s Hollow, e logo cedo, o filho do meio dos Potter se levantava de sua cama, num bocejo longo. A manhã estava fria e silenciosa, embora a claridade já entrasse pelas janelas. Provavelmente o elfo Monstro já as abrira, para entrar ar e claridade. Era manhã de Natal, e como todos os anos de Alvo em Cedric’s Hollow, ele se levantaria, desceria as escadas eufórico e rasgaria a embalagem de mais um presente que o Papai Noel lhe trouxera.

Ao se levantar, a primeira coisa que o garoto fez foi urrar de dor, pois pisara bem no cabo da espetacular vassoura que sempre estava jogada abaixo de sua cama. Muitas pessoas poderiam condenar o ato de Alvo Severo ignorar ter a posse de nada mais nem menos do que a melhor e mais famosa vassoura de toda a Grã-Bretanha.

No Natal passado, Alvo ganhou a tão invejada vassoura, fazendo Tiago, seu irmão, delirar. A Star Generation possuía um design futurista, e seu cabo aerodinâmico incrustado de pedras lunares apresentava uma beleza única, e que aumentava significativamente o custo no mercado. As pedras apresentavam um peso maior à raridade, mas nem por isso a Star era lenta.

Tiago bem sabia disso, pois usara a vassoura durante seu segundo ano letivo todinho na Escola de Magia, o que lhe rendera muitas goleadas para o time da Grifinória. Porém, numa lendária performance da apanhadora da lufa-lufa - que por acaso era prima de Alvo Severo -, Victoire apanhou o pomo de ouro antes mesmo de Tiago poder marcar a primeira pontuação no último jogo de final da Copa das Casas em Hogwarts.

Ao abrir a porta do quarto, uma coisa assustou Alvo: Ed passeava elegantemente pelo corredor iluminado, com uma bola de pêlo na boca. O gato, filhote, era magrinho e branquelo, seus pêlos muito curtos alvejavam o piso acinzentado. Ed passara em frente ao quarto de Alvo, e entrara por uma frestinha no quarto ao lado. Lily já estava acordada, e algumas luzinhas em tons vermelhos passavam pelas frestas de sua porta. Provavelmente já vira seu presente de natal, e já estava se divertindo com ele.

Quando descia as escadas, Alvo viu Monstro arrumando as meinhas penduradas na porta da frente de casa, e deu um “olá” que lhe pareceu mais um bocejo do que cumprimento.

- Hmm... – Alvo procurava seu presente em meio a poucas outras embalagens que atulhavam o sofá da sala. – Tiago.... err, esse não.... Gina.... também não... aqui está! Alvo Severo Potter! Mas que embalagem pequena!

Alvo tirou uma embalagem pequena e roliça do meio das outras, envolta em papel preto com listras amarelas. Havia algo duro lá dentro. Parecia feito de madeira.

- Uma Flauta? – indagou o menino, surpreso. Abrira a embalagem, e o objeto escorregara da embalagem para sua mão. Estava certo, era uma flauta, e era de madeira.

Alvo reparou que a flauta fora feita à mão, e lhe parecia bem velha, embora esteja limpa. Não pôde deixar de reparar que havia uma letra "H", toscamente talhada, próxima ao bocal. Haviam também alguns desenhos de patas no corpo do instrumento que chamaram a atenção de Alvo. Admirou os contornos do objeto por alguns instantes, até ser interrompido pelo irmão, que descia alegre, ansioso para abrir seu presente. Logo depois, o pai de Alvo desceu as escadas, e, ao ver o garoto com a pequena flauta nas mãos, um saudoso sorriso surgiu em seu rosto.

- Feliz Natal Alvo! O que achou do seu presente? - perguntou Harry, se aproximando do filho.

- Uma flauta, papai? Eu não sei tocar flauta. - surpreendeu-se Alvo, olhando para o pai.

- Eu também não sabia tocar quando a recebi, filho. - explicou Harry olhando por cima dos óculos redondos para um curioso Alvo Severo.

- Mas do que vai ser útil uma flauta, então?

- É uma lembrança muito bonita, meu filho. Foi o primeiro presente decente de natal que eu ganhei.

- Uma goles nova, papai! - gritou Tiago, repentinamente, do outro lado do sofá. - Ah valeu papai, agora meus treinos serão bem melhores.

- Quem talhou esta flauta, papai? - perguntou Alvo, ainda curioso.

- Meu amigo Hagrid, o meio-gigante. E acho que ele vai ficar satisfeito de saber que o novo dono é você meu filho.

- Você sabe tocá-la, papai?

- Nunca tentei - respondeu Harry, desapontado com si mesmo. - mas gostaria de saber que meu filho tentou.

- Pode deixar papai - respondeu Alvo orgulhoso - Olha quem vem descendo, pai, é a Lily! Feliz natal Lily!

- Feliz natal Al! O que você ganhou de Natal? - perguntou a pequena e meiga irmã de Alvo Severo, sentando-se no sofá, e se reunindo à família na nublada manhã.

Os Potter ficaram rasgando pacotinhos de todos os tamanhos e revelando seus presentes natalinos por um bom tempo, até o velho elfo aparecer na sala, para chamar a todos para um apetitoso almoço de natal.





Após um almoço muito saboroso e muita conversa, Alvo se lembrou de que teria despachado a alguns dias atrás uma coruja para sua amiga Lysandra, que provavelmente não estaria tendo um natal tão contente. Então, ao ver a coruja da família vir voando com algo preso no bico, Alvo se levantou e abriu a janela da sala-de-jantar, deixando a coruja entrar e largar um pacote na mesa.

Alvo não conseguiu entender. O pacote de bolinhos que enviara à amiga voltara do mesmo jeito que o garoto mandara. Talvez a coruja não tivesse encontrado Lysa, ou talvez simplesmente estivesse velha para entregas complicadas.

- Droga! - resmungou o garoto, pensando no natal de Lysa.

- O que foi querido? - perguntou sua mãe intrigada.

- Nada mãe, nada. - respondeu Alvo nervoso.

- Eu sei o que é. - exclamou Lily, inesperadamente. Alvo olhou para a garota com curiosidade.

- Rose me contou tudo, mamãe - disse a garotinha, incapaz de olhar para Alvo - tem uma garota, que é amiga do Al, e ela tá levando ele para as artes das trevas. Anda enfeitiçando ele de algum modo.

- O quê? - Alvo ficou surpreso de ouvir a irmã falar tanta bobagem.

- Ah, eu sei quem é... - falou Tiago entre risos - É uma garota esquisita. Vive com aquele loirinho maluco e a menina biruta, e, é claro, com o Al. Ah Alvo, a fama de vocês não é das melhores lá na escola não viu. Todo mundo diz que vocês são esquisitos.

- Esquisitos? - indignou-se Alvo - Nós simplesmente não somos babacas exibidos que nem você, o Freddy e aquela Jordan.

- Eu sei o que você sente Al. - respondeu Tiago, se levantando da cadeira muito inesperadamente - Você morre de inveja do nosso trio. Nós somos os mais populares da escola, e todo mundo se dá bem conosco. Já os doidões do castelo...

- Parem com isso agora! - exclamou Harry, alteando a voz - Alvo e Tiago, sentem-se.

Tiago sentou-se, emburrado, mas Alvo continuou em pé.

- Obedeça seu pai, Al - disse Gina para Alvo, mas este se recusou.

- Não vou me sentar com vocês. - a mão de Alvo vacilou, e foi em direção ao bolso da calça onde estava sua varinha. - Pra mim já chega. - e voltou-se para a irmã - De você eu não esperava isso, Lily.

Alvo saiu da sala-de-jantar e saiu pela porta para uma melancólica tarde de natal. Seus amigos, Escórpio e Ana estavam com os primos do loiro, mais adiante. Jogavam Snap explosivo animadamente ao lado de um arbusto florido.

- Feliz Natal Al! - cumprimentaram os amigos, ao verem o amigo se aproximar. Traziam uma cesta nas mãos, e pelo que Alvo podia ver, estava abarrotada de sapos de chocolate.

- Este é o nosso presente para você, Alvo - disse Anastácia Scamander, oferecendo a cesta ao amigo. Os irmãos MacLaggen ficaram para trás, entretidos com o jogo.

- Vamos dobrar sua coleção de figurinhas... é, meu amigo, acho melhor você começar a trocar as figurinhas com o pessoal, senão não vai agüentar levar sua caixinha para Hogwarts. - falou Escórpio, convidando Alvo com um gesto a se juntar aos MacLaggen.

Alvo colecionava figurinhas de sapos de chocolate desde pequeno. Possuía uma caixinha de madeira onde tinha um arsenal com um número realmente alto delas. Gostava de conhecer os grandes nomes da bruxaria, e sempre as revia, quando não tinha nada para fazer. Em Hogwarts, nunca tentara trocar nada, pois se limitava ao grupo de amigos de sua casa. Era tímido, e poucas pessoas o viam como uma pessoa boa para ter como amigo.

- O que é isso, Al? - perguntou Anastácia, referindo-se à flauta, que estava embrulhada e enfiada no bolso da frente.

- Meu presente de natal. É uma flauta. Foi do meu pai, e quem a fez foi o Hagrid. - explicou o amigo, se juntando ao jogo.

- Interessante... E você sabe tocar, Al? - perguntou Escórpio, tentando adicionar uma carta do Snap na torrinha que construíam.

- Nunca tentei - respondeu Alvo, rindo-se a valer, ao ver o amigo derrubando a pilha de cartas, que explodiram fazendo fumaça de cinzas que não queimavam para todo o lado.





Após a passagem do Natal, finalmente chegava o dia em que Alvo e todos os outros alunos regressariam à escola. Alvo acordou cedo para arrumar suas coisas, e a primeira coisa que viu foi a flautinha de madeira tosca que ganhara do pai, numa mesinha de quarto ao lado de sua cama.

Ainda não tentara tocar, e agora seria uma boa hora para experimentá-la. O gato de Lily, Ed, estava passeando pelo quarto de Alvo, e parou para ouvir a melodia.

Alvo encostou a flauta em seus lábios, e começou com um leve assopro, que deu início a sua confusa melodia. A flauta tocava em um som baixinho e suave, que lembrava um pio de coruja. Alvo tocava o instrumento e melhorava cada vez mais seu desempenho, e sem se dar conta, ficou tocando por quase dez minutos no mesmo pio. Pelo jeito, Ed não gostara muito do som, porque adormecera ao pé de Alvo, e precisou ser empurrado para levantar e rumar para o quarto ao lado, onde Lily o chamava.

Algum tempo depois, Alvo desceu com o seu malão para a sala, onde Tiago aguardava no sofá, ao som de uma discussão entre Harry e Gina, por causa de alguma notícia que saíra no Profeta Diário.

- Mas como ela conseguiria, Gina? - discutia Harry, a altos brados - Tudo bem que não há dementadores, mas os guardas também não são completos inúteis.

- Harry, essa é mulher é perigosa, e te odeia. - dizia Gina, insistentemente.

- Ela não teria coragem de enfrentar o chefe da Seção de Aurores do ministério, ou teria? - rejubilou-se o pai de Harry, caçoando da foto de alguma mulher muito mal arrumada na página do jornal.

- E Hermione? Imagino que ela já tenha sabido. Oh, ela deve estar preocupadíssima. - Gina estava nervosa, e o marido tentava acalmá-la.

- Hermione não tem medo dessa gárgula! - disse Harry pensativo.

- Mas eu tenho! Você e eu sabemos do que ela é capaz, Harry. E ela simplesmente odeia a nossa família.

- Ela que tente algo com meus filhos! - ameaçou o pai.

- Posso saber de quem vocês tanto falam? - perguntou Alvo, interrompendo a discussão e pegando a folha do jornal em cima do console.

Na capa do Profeta Diário, havia uma foto realmente grande de uma mulher gorda e um tanto excêntrica. Suas vestes eram felpudas e espessas, mas estavam esfiapadas e um lacinho imundo prendia seus cabelos meio desgrenhados.

Era baixinha e seu olhar denotava profundo ódio. Estava sendo segurada por dois bruxos fortes, que a erguiam do chão o suficiente para suas delicadas sapatilhas sequer roçarem o chão de pedra da Fortaleza de Azkaban. Acima da foto, a manchete informava:

"DOLORES JOANA UMBRIDGE, A MAIS NOVA FUGITIVA DE AZKABAN"

- Quem é essa tal de Umbridge, mamãe? - perguntou Alvo, percebendo que a mulher representava algum perigo à sociedade somente por seu olhar maléfico.

- Uma mulher horrorosa, que chegou a diretora em Hogwarts - respondeu a mãe, ainda preocupada - Não sei como, mas conseguiu fugir da prisão. Seu pai vai ao ministério cuidar do caso, e quem vai levá-los à estação hoje sou eu.

- Ela pratica artes das trevas? - perguntou Alvo, curioso.

- O poder de Umbridge estava em sua influência ministerial, na época de Fudge. Mas estamos salvos disto com Shacklebolt. - explicou Harry, pegando um punhado de pó de Flu e jogando na lareira - O Ministro nunca foi com a cara da Umbridge, e nunca ouviria nada vindo dela. Tchau, e boa viagem para Hogwarts - e desapareceu por trás das chamas esverdeadas da lareira.

- Vamos? - perguntou Gina, seu olhar meio vago.





Quando chegaram na estação, os Potter, com exceção do Potter pai, atravessaram a plataforma nove e meia e logo encontraram os pais de Rose e Hugo. O tio Ronald avançava a estação alegremente conversando com o filho caçula, enquanto Hermione mordia os lábios de mãos dadas com Rose.

- Gina, como vai? Receio que já esteja sabendo... - cumprimentou a tia preocupadamente.

- Já sim! - indagou a mãe de Alvo, correspondendo preocupação - Harry foi cuidar do caso no ministério, e pensei que Rony também tinha de aparecer por lá.

- Não, não Gina, não ia perder a chance de deixar Rose no trem. E a sapa velha não é tão preocupante assim, ou é? - Rony tinha um tom de gozação quando se referia à mulher horrorosa que Alvo vira no jornal.

- Ronald, por favor, aquela mulher nos odeia. Ou você esqueceu que eu fui a principal responsável por trancafiá-la todos esses anos em Azkaban. - disse Hermione, muito sensata, apesar das preocupações - Ela tinha contatos úteis que a defendiam no tribunal, e se não fosse eu apresentando todos os argumentos para o ministro, ela se safaria.

- Se safar? Dolores Umbridge nunca se safaria. Não com Rony e Harry na Seção dos Aurores, pelo menos. - disse Gina, tentando disfarçar a preocupação.

Hugo e Lily se juntaram e iam se sentar mais distantes, numa conversa animada. Alvo aguardava com a mãe, ouvindo a conversa dos tios atentamente, e Tiago provavelmente já estava à bordo do Expresso. Rose acabava de ver uma amiga chegando, e foi de encontro a esta, cumprimentando-a.

- Eu sei que temos que investigar incansavelmente o que Umbridge fez para conseguir fugir da prisão. - discutia Hermione, energicamente - Eu diria que tem algo a ver com corrupção. Maldita Gárgula! Sempre teve seus contatos confiáveis... Troca de favores... Aposto que alguém de Azkaban devia algo para ela...

- Bom, só podemos especular, não? - concordou Gina.

Naquele momento, uma visão desfocou Alvo totalmente da tia e da mãe. Uma garota de cabelos longos e lisos, embora muito escuros acabara de entrar na estação, sozinha, com seu malão surrado e vestes muito amassadas. Havia uma grande marca roxa que Alvo não reconheceu no momento, e, ao se aproximar, percebeu que era um grande hematoma de algo que parecera alguma pancada realmente dolorosa.

- Ei Lysa! O que é isso? - perguntou o garoto, ao correr em direção da garota. Um ar sombrio escondia seu rosto, e os cabelos escondiam metade de sua face.

- Me deixe, Al - respondeu a garota sem desviar o olhar. Sua voz era de inconfundível choro reprimido.

Lysandra continuava a andar na direção do trem, e, na aglomeração de alunos, Alvo a perdeu, muito confuso. Seus pais tinham feito alguma covardia com a garota, e isso era imperdoável. Alvo não se contentava em saber que poderia ter um natal tão aconchegante em seu casarão e uma garota como Lysa teria de agüentar o inferno que era viver com os pais.

Então, o próximo barulho que ocorreu, fez o garoto sobressaltar-se. Um som ensurdecedor de algo pesado caindo com estrondo e muita poeira.

Hermione corria e gritava na aglomeração de pais, acompanhada de Gina. As duas estavam descontroladas, e de cada um de seus lábios saíam sons diferentes. Hermione gritava por Hugo, e Gina, por Lily. Os primos haviam sumido, e uma coluna da estação havia sido explodida. Demorou alguns segundos para Alvo absorver a informação, mas ao ouvir a tia gritar o nome da fugitiva, entendeu tudo.

Hugo e Lily haviam sido seqüestrados, pela prisioneira Dolores Umbridge.

Alvo Severo e o Segredo da Víbora (Capítulo 14)

Capítulo XIV – Um natal muito “Dursley”

Alvo Severo pensara que seu natal iria ser intensamente chato sem os melhores amigos por perto, mas em pouco tempo percebeu que estava errado. Sempre fora tímido e quieto, mas Hogwarts despertara uma animação oculta dentro de si, e ele sabia que tinha tudo para passar um natal muito alegre ao lado de sua família.

O pai de Alvo lhe abarrotava de perguntas todos os dias sobre o trimestre na escola, e o garoto estava tão próximo de Harry quanto nunca esteve antes. O pai e o tio Rony passavam mais tempo dentro de casa com Alvo ao crepitar da lareira do que com Tiago, que divertia-se jogando bolas de neve nos vizinhos e amigos.

Os Weasley estavam sempre por lá, embora Rose estivesse evitando Alvo, preferindo a companhia de sua irmã. Lily, Rose, Hugo e Colin ora participavam das lutas de bola de neve, ora podiam ser vistos sentados conversando no centro da vila. Colin também não viera falar com o amigo , e isso incomodava Alvo, que não compreendia a revolta.

Naquele dia, os tios Gui e Fleur, juntamente com a filha mais velha foram a Cedric’s Hollow, a fim de despedirem-se dos Potter, pois iriam à França visitar os irmãos de Victoire, que estudavam na Escola de Magia e Bruxaria Beauxbatons. Chegaram cedo, e Alvo acordou com a voz suave de sua prima, no patamar abaixo.

Alguns minutos depois o garoto se revirou na cama para ver o dia no calendário preso à porta. De um salto levantou-se, surpreso ao ver que o calendário trazia o dia 24 pintado magicamente. Era encantado para brilhar em dias comemorativos. Uma bonita lembrança dos amigos inundou a mente de Alvo, que saiu do quarto e desceu para a sala-de-estar, depois de se trocar. No corredor, passou por Ed, o gato, que ronronava brincando com um emaranhado de lã escarlate. Na sala, seus pais conversavam animadamente com os pais de Victoire.

- Bom dia Al! Como vai? – disse Victoire, ao ver o primo descendo as escadas.

- Bom dia prima! Vou bem... e vocês? – indagou o garoto.

Neste momento, Tiago surgiu no corredor que levava à cozinha.

- E o professor Teddy, Victoire? Como ele vai? – perguntou Tiago entre risinhos.

Victoire exibiu um largo sorriso e respondeu com fingida timidez.

- Estamos muito bem também! Ele é maravilhoso! Inclusive, tomou uma bronca feia da diretora quando ela nos pegou juntos...

Alvo não estava prestando atenção, pois acabara de ouvir uma voz muito familiar, então correu para a porta da frente e abriu-a. Será? Não podia acreditar...

Indiscutivelmente eles estavam lá. Escórpio Malfoy estava lívido de raiva, acompanhado de perto por Anastácia, que tentava acalmá-lo. Rose Weasley estava em frente à casa de Alvo, juntamente com Colin e Lily. Brigava com o loiro, berrando a plenos pulmões, dizendo para ir embora.

Quando a dupla viu Alvo abrindo a porta, um sorriso de satisfação apareceu em seus lábios, e Alvo correu ao encontro dos amigos, enterrando fundo os pés na espessa neve da rua. Rose chamou Alvo, que a ignorou para se juntar a Malfoy e Scamander. Escórpio debochava da prima de seu amigo, enfurecendo Lily e Colin. Hugo, que estava sentado mais atrás, levantou-se inconformado. O loiro puxava Alvo e Ana para longe.

- Você estava pensando em passar o natal longe de nós, Al? – perguntou Malfoy animadamente.

- Esperem um pouco. Como vocês chegaram aqui? – perguntou Alvo, ainda surpreso, porém feliz.

- A tia do Corp é sua vizinha, Al! Não é genial? – disse Ana olhando para Alvo com seus olhos saltados de constante surpresa.

- Vizinha? Como assim? Quem é a sua tia, Corp? – perguntou Alvo confuso.

- A Sra. Malfoy é irmã de Daphne MacLaggen – explicou Ana ao ver Escórpio abrir a boca.

- Você é parente dos MacLaggen? Quer dizer, do Beto e da Mirza? – perguntou Alvo, desejando que desta vez o loiro o respondesse.

- Eles são meus primos, oras! – respondeu Escórpio, impedindo Anastácia de se interpor.

- Nós estamos na casa deles, embora o Sr. Malfoy não vá muito com a cara do cunhado. – disse Ana, satisfeita de expor sua opinião.

- A Mirza é da turma da sua prima, aquela... – começou Escórpio. Um risinho desdenhoso e satisfeito demonstrava o prazer que sentia de brigar com a arquiinimiga.

- Pode ir parando por aí! – Alvo interrompeu-o – Que vocês briguem tudo bem, mas não venha trazer isso para nossas conversas.

- Até que a Rose parece uma pessoa legal, Corp. Ao menos sensata, ao contrário de você. – disse Ana, rindo do amigo.

- O que? Aquela sujeitinha nos odeia, e você ainda quer defendê-la? – disse Escórpio indignado.

- Eu já avisei Corp. Estou sem falar com a minha prima, e é por sua culpa.

- Não, não, Al. Você sabe porque sua prima e o Colin estão te evitando, e Corp não tem nada a ver com isso. – corrigiu a loira. Seu olhar deteve-se no bolso do garoto. Parecia procurar algo.

- Se você estiver falando do que ocorreu com o Colin na aula... – Alvo irritou-se.

- Ora, Alvo, o Colin não ficou todo machucado por nada! – debateu Ana com cuidado.

- Aquele feitiço não saiu da minha varinha! E esperem um pouco... Minha varinha! Eu a esqueci. Tenho que buscá-la. Esperem aqui, já volto. – Alvo saiu correndo, e deixou os amigos sentados nos bancos cheios de neve na praça.

- Mas Al... Para que a varinha agora? – a voz de Malfoy foi ouvida pelo garoto ao entrar em casa, exasperado.

- Oi Al, aonde vai com essa pressa, menino!? – perguntou Gina, ao ver o filho passar correndo pela sala.

Ao entrar em seu quarto, Alvo viu primeiramente que não estava sozinho. Tiago, seu irmão, estava sentado na cama do sonserino, e, em sua mão estava ela. Cada adorno rúnico cintilando à luz solar, que banhava o quarto através da janela aberta.

- Ei! O que está fazendo? Quem te deu permissão para tocar em minha varinha? – enfureceu-se Alvo.

Tiago não desviou os olhos. Admirava a varinha cor de vinho, muito escura.

- Tiago, solte a minha varinha agora! – ordenou o sonserino, odiando cada dedo do irmão fechado em torno da varinha.

- Ela é tão... tão... bonita... - disse o grifinório muito lentamente. Seus olhar não abandonava o objeto nem por um segundo.

- Eu sei o que ela é. Ela é minha! – berrava o sonserino. Imagens da mão do garoto queimando em brasas passavam pela cabeça de Alvo.

- Deixe-me experimentá-la, Al. Deixe-me usá-la, por favor. Só uma vez... – Tiago se recusava a olhar para o irmão.

- Me dê ela agora! – gritou o sonserino mais uma vez, indo para cima do irmão.

Então... a porta se escancarou, despertando Tiago do transe.

- Ei meninos, vocês estão brigando? O que é isso? – a tia de Alvo, Hermione entrara no quarto. Alvo continuou a gritar para o irmão.

- Pare com isso Alvo! Está assustando seus tios lá embaixo. – continuou a tia – Tiago, entregue a varinha para mim.

- Não tia.

- O que? Tiago, vou chamar seu pai...

- Não vou entregar a ele também. Quero experimentá-la. – teimou o sobrinho, girando a varinha nos dedos.

- Você sabe que não pode executar feitiços fora da escola, Tiago. – falou a tia estudando a situação - Vai complicar a situação de seu pai no ministério, pare com isso e entregue a varinha.

Alvo percebeu um sinal de medo em Tiago. Nunca havia acontecido alguma situação em que Tiago demonstrasse medo. Em geral ele fazia coisas sem pensar em conseqüências.

- Rictumsempra! – bradou Tiago, direcionando a varinha para a tia.

Hermione deu um salto para o lado e o feitiço errou seu rosto por pouco. Atingira uma estante de velhos brinquedos de Alvo, fazendo-os voar para todos os lados.

- Expelliarmus – gritou Hermione. O feitiço atingiu a mão de Tiago, e a varinha de Alvo Severo foi retirada da mão do outro. Caíra com um baque leve do outro lado da cama.

O dono correu para sua varinha, e a apanhou. No momento em que seus dedos se fecharam em torno da madeira “nem tão maleável, nem tão rígida, porém muito leve”, Alvo sentiu um alívio profundo. Estava seguro agora, e não permitiria que ninguém se apossasse de sua varinha.

- O que está acontecendo aqui? – Harry entrou no quarto, surpreso ao ver Hermione levantando-se do chão, repleto de brinquedos – Eu ouvi feitiços. Estamos numa casa ou num clube de duelos?

- Boa papai! Vamos abrir um clube de duelos! – disse Tiago animado. Mudara da água pro vinho ao ser desarmado.

- Tiago! Isso não tem graça! – disse Hermione irritada – Você me atacou a pouco, e agora está assim?

- O que você fez Tiago? Atacou sua tia? Você não pode...

- Tudo bem, Harry, estou bem.

- Mas...

Alvo não queria participar da discussão, então, de fininho deixou o quarto e saiu de casa sem responder as insistentes perguntas da mãe, que aguardava na sala com os convidados.





- O seu irmão atacou sua tia? Enquanto empunhava a sua varinha? – perguntava Anastácia, após o amigo ter explicado tudo que se sucedera no quarto – Muito suspeito...

- Não há nada de suspeito nisso! – ralhava Alvo com a amiga - Só que o meu irmão é um imbecil cabeça-dura que adora se meter no que não é da conta dele.

- Se eu não te conhecesse diria que morre de inveja do irmão... – disse Escórpio com ar de deboche enquanto se sentavam.

- Ah é, senhor Escórpio? E se eu não te conhecesse, diria que morre de amores pela Rose – retrucou Alvo, arrancando gargalhadas de Ana.

- Rose? Sua prima me enoja, Al. Ela não passa de uma preconceituosa metida a besta. – disse Escórpio com escárnio.

- Vamos parar com isso, okay? – interrompeu Ana sensatamente – O caso é que há algo muito esquisito com essa sua varinha, e temos que descobrir.

- Ana, amanhã é Natal! Não temos tempo para investigar nada hoje, então vamos deixar isso para depois – falou Malfoy olhando para trás. Alguém se aproximava em passos fundos na neve.

Beto e Mirza MacLaggen estavam se aproximando, até interromperem a conversa.

- Escórpio, papai está te chamando para o almoço. Você e sua amiga – disse o garoto com feições carrancudas.

- Está bem Beto, já vamos. Até mais tarde, Al – disse o amigo desanimado.

- Acho que não vai dar para nos vermos mais tarde, Corp. Nós vamos visitar um primo do meu pai. Eles não se vêem há muito tempo, sabe. E... e... eles são trouxas. – disse Alvo mais desanimado que o loiro.

- Feliz natal, então, Al! E boa sorte com os trouxas! – falou Anastácia não tão desanimada.

- Digo o mesmo. – concordou o amigo, se levantando com Ana e indo para a casa de sua tia, atrás dos primos.





Após ter passado a tarde com os amigos, Alvo teve de ir se arrumar para saírem. Os Potter vestiram-se de trouxas para irem à ceia natalina, e Harry parecia entender bem das esquisitas vestimentas, pois estava usando um terno e uma gravata dignos de admiração de Artur, o avô de Alvo. O garoto também teve que vestir um terno, e se sentia bem desconfortável dentro das vestes.

Tiago achava engraçado ficar puxando a sua gravata e as dos outros. Gina estava com um belo e longo vestido roxo, muito chamativo e um pouco justo. Era presente do marido, que precisou de uma ajudinha da amiga Hermione para a escolha. Lily, que estava usando um conjunto vermelho não parava de chatear o pai, pedindo para poder levar Ed, seu pequenino gatinho para o encontro.

- Não podemos levar animais, Lily. Tia Petúnia os odeia, e ela pode estar lá. – respondia o pai.

Chegaram à estação de trem com o dia já escurecendo, e desembarcaram numa outra estação muito parecida. Alvo ficou encantado com as estruturas metálicas gigantescas, e com o sistema de tickets das catracas.

A família pegou um ônibus trouxa e desceram num monótono bairro de subúrbio, repleto de casas quadradas e muito iguais. Em geral, todas tinham uma garagem, carros coloridos à frente e um jardim de arbustos, além da forma quadrada.

Então eles passaram por algumas ruas, até Harry parar de chofre em frente a uma casa igual a tantas outras.

- Estão vendo essa casa? – disse saudoso - Era da Sra. Figg, que certa vez me ajudou muito em um julgamento no ministério. Depôs a meu favor.

Os Potter dobraram mais duas esquinas e entraram na Rua dos Alfeneiros. As casas continham decorações com pisca-piscas de todas as cores e formas. Logo na esquina, havia um barzinho sujo, o qual o pai de Alvo não reconheceu, então os cinco se aproximaram do local para darem uma olhada.

Havia um bando de maltrapilhos malvestidos e cambaleantes. Cada um tinha uma latinha na mão e rostos mal encarados. Quando Harry e a família se aproximaram, um deles, que tinha cara de rato valentão, apesar de magricela parou de rir com os amigos, olhando para a cara do pai de Alvo.

- Harry Potter? – disse o maltrapilho encarando o pai de Alvo – Não posso acreditar que você é aquele garoto maluco que morava com os Dursley. Olhe Malcolm, quem apareceu aqui no bar, venha ver. – um homem gordo e feioso se levantou para dar uma espiada indiscreta nos Potter.

- Pedro Polkiss – falou Harry sério – Vejo que minhas expectativas sobre você se concretizaram. Um bêbado inútil de esquina. Ainda agarra criancinhas desavisadas por aí, Pedrinho? – o pai de Alvo olhava para o homem e os seus amigos como se eles fossem montes de dejetos fedorentos num lixão.

- E você, Potter? Ainda passeia em carros voadores? Ou você acha que o Duda não me contou nada no dia seguinte? E ainda liberta cobras de zoológicos por aí? E quem são esses com você? Vai dizer que são sua família?

Pedro riu do rosto assustado de Lily. Gina tentava conduzir o marido para fora do local. Alvo estava vendo um homem particularmente nojento arrotar alto, arrancando risadas dos outros.

- Carros voadores? – respondeu Harry com selvageria – É, Pedrinho, acho que agora podemos perceber quem é o maluco por aqui. E sugiro que lave sua boca para falar de minha família.

Vários dos maltrapilhos debocharam de Polkiss, que começou a brigar com cada um. Tiago colaborou com as risadas, parabenizando o pai. Harry cedeu e levou a família adiante.

- Quem são aqueles idiotas, papai? – perguntou Tiago ao passarem direto pelo número onze.

- Panacas que andavam com meu primo na nossa infância. – respondeu Harry prontamente.

- Seu primo é como eles, papai? - perguntou Lily preocupada.

- Espero que não tenha chegado a esse ponto, filha. – respondeu o pai ao passarem pelo número seis.

Quando chegaram ao número quatro, Harry parou para admirar a casa, que era idêntica a tantas outras na rua. Haviam luzes acesas e um gritinho fino e feminino podia ser ouvido de longe.

- Chegamos à casa dos Dursley, é aqui.

Harry passou pelos arbustinhos muito bem cuidados e pressionou um botãozinho ao lado da porta. Um “ding-dong” tocou em algum lugar, Tiago arrancou uma folha do arbusto, e a porta se escancarou.

Uma magra mulher , de cabelos louros muito lisos e curtos abriu a porta com um sorriso nos lábios maquilados com batom extravagante.

- Boa noite – disse, esgueirando-se pelo hall – Vocês devem ser os Potter. Entrem, por favor, e sejam bem-vindos. – a mulher tinha um tom de quem passou horas treinando para apresentar os cumprimentos.

- Muito obrigada! – respondeu Gina com simpatia – Vamos crianças, vamos entrando – Tiago, pare de mexer nas flores.

Os Potter entraram no hall, repleto de vasinhos de parede e de teto, e Alvo pôde ver uma garota baixinha e gorducha, que berrava para o pai.

- Ah Duda, como vai? – seu pai cumprimentava o pai da garota, enquanto Gina abria conversa com a Sra. Dursley. A garota sentou-se, chateada com o pai.

- Harry! Há quanto tempo... Essa é minha esposa, Eleonor, e minha filha, Isla. Mamãe já está descendo, ela está no telefone com uma amiga. – explicou Duda.

Alvo teve a impressão de que o Sr. Dursley fosse mais simpático que a mulher, que não escondia o fingimento na voz. A garotinha Dursley parecia estar querendo armar um ataque de nervos, e Tiago olhava para ela com um risinho malicioso que dava medo em Lily. Alvo tinha certeza que o irmão tinha algum plano em mente.

A tal Tia Petúnia não demorou a descer, muito elegante. Era magra e pescoçuda, e o rosto fino e cavalar lhe dava uma aparência um tanto animalesca, não fosse a maquiagem e a pele enrugada pelo tempo. Os cabelos brancos estavam amarrados e um adorno prateado os prendia. Seu olhar demorou em Harry ao descer as escadas, se juntando ao grupo na sala-de-estar levemente aquecida pela lareira.

Alvo vislumbrava os vários retratos no console e nas mesinhas. Eram parados, e as pessoas retratadas sequer piscavam. Haviam muitas Islas acompanhadas do pai e da mãe, e em geral estavam experimentando uma boneca nova ou um farto sorvete de chocolate. Alvo pensou que os trouxas se petrificavam para tirar fotografias, até sua mãe explicar a diferença de fotografia bruxa e fotografia trouxa.

Alguns minutos de conversa se passaram, e logo a Sra. Dursley veio chamar a todos com sua falsa simpatia para a ceia natalina.

Quando o relógio à pilha da sala marcou zero hora, as duas famílias começaram a se deliciar com todas as comidas dispostas à mesa. Havia realmente muita coisa diferente para comer, e Alvo logo pôde perceber o motivo da excessiva obesidade do Sr. Dursley. A filha desprezara a comida e revirava impacientemente a pilha de embalagens natalinas que estava sob um pinheirinho rodeado de luzinhas pisca-piscas. Isla resmungava abertamente para os pais da pequena quantidade de presentes que o “bom velhinho” trouxera. A mão tentava acalmá-la, dizendo que ela ganharia o dobro no aniversário.

- E o Tio Válter, não veio? – perguntou Harry ao mordiscar um pêssego.

- Papai não está passando bem – respondeu o primo, desapontado – Nunca mais foi o mesmo depois do acidente com as brocas na Grunnings.

- Válter está passando por tratamentos psiquiátricos, não pode conviver com muita gente... Comemorações natalinas não fazem nada bem a ele... – comentou tia Petúnia deprimente.

Tiago não conseguiu esconder um risinho de satisfação, quando Isla parou de contar os presentes para tentar abocanhar uma coxa de peru todinha de uma só vez. Ao se engasgar, Tiago levou um beliscão da mãe.

- E Guida, como vai? Ainda cuida de muitos cachorros? – perguntou Harry, querendo adentrar um assunto que tornasse o sorriso da Sra. Dursley um pouco mais convincente.

- Faleceu – respondeu Duda com tristeza – Há uns cinco anos, se não me engano.

- Nossa! Mas o que aconteceu? – perguntou Gina, solidariamente, ao cortar seu bolo de frutas.

- Acidente de carro – informou tia Petúnia com amargura – Foi atropelada enquanto corria atrás de um de seus buldogues. Ela era forte, a Guida... mas não agüentou o impacto... quase mata o motorista junto...

A conversa não conseguia chegar em um ponto mais descontraído, e quando Lily convidou a filha do Sr. Dursley para folhearem uma revistinha para garotas bruxas, a Sra. Dursley logo inventou uma desculpa para separar as duas.

- Querida, olhe, você esqueceu de abrir este seu outro presente.

Parecia que Duda contara à esposa sobre o fato dos Potter serem uma família de bruxos, e definitivamente Eleonor se comportava como uma legítima Dursley. Tiago se deliciava com algumas balinhas carameladas em forma de concha, a um canto da sala; e Isla fitava o garoto com seus olhos gulosos e nunca satisfeitos.

- Mamãe, eu quero uma bala daquelas – disse ela descaradamente em alto e bom som, quando Alvo terminava seu suco de melancia.

- Tiago, querido, ofereça uma bala a Isla – falou Gina antes que a Sra. Dursley abrisse a boca. Petúnia olhava com preocupação para Tiago.

- Claro, mamãe! – obedeceu Tiago prontamente. – Espere, eu tenho uma aqui no bolso que você vai gostar...

O inconfundível risinho de satisfação de Tiago dizia tudo: iria aprontar alguma de suas travessuras.

Isla pegou a bala colorida da mão do garoto sem agradecer, abriu o embrulhinho e enfiou de uma vez na boca, sorrindo bobamente. Harry trocou olhares aflitos com Gina, e a mão de Lily foi à testa.

Tudo ocorreu muito rapidamente. A garota engoliu a bala caramelada após mastigá-la gulosamente, então em poucos segundos levou as mãos às orelhas e começou a berrar e guinchar feito um leitão faminto. Suas orelhas cresciam e tornavam-se rosadas e muito claras, tornando a forma de orelhas de porco. Isla ora chorava a altos berros, ora guinchava feito porco. A avó deu um gritinho de desespero, e a mãe foi logo acudir a filha descontrolada. O Sr. Dursley brigava com Harry, exasperado.

- MAS O QUE É ISSO? O QUE ESSE SEU BRUXINHO FEZ COM A MINHA FILHA?

- Calma Duda, vou tentar um contra-feitiço. Tenho um que é “tiro e queda”, só um pouco demorado. – Harry tentava diminuir a gravidade da situação, apesar de não conseguir esconder um breve risinho das orelhas suínas da garota-porco.

Gina estava arrasada. Largara-se numa poltrona gritando com o filho. O garoto rolava de rir, ouvindo as ameaças da mãe.

- Olha o que você fez, garoto. Vamos ter uma boa conversa quando chegarmos em casa, e muito obrigada por estragar nosso natal. – gritava ela vergonhosamente. Não conseguia olhar para a cara de Eleonor.

Alvo não pôde negar que eram realmente engraçadas as orelhas , e que provavelmente essa era mais uma das geniais e veneradas invenções do tio Jorge, mas guardou o riso para si até o fim.

Lily parecia profundamente desapontada, sentia pena da garota. Olhava para o irmão como se ele fosse um dos maltrapilhos do bar de Polkiss, e aprovava cada palavra da mãe.

O pai de Alvo ficou quase dez minutos “consertando” as orelhas de Isla, enquanto ouvia os desaforos do primo e sua esposa e, ao terminar, foram embora sem se despedirem.

Alvo percebera que era importante para seu pai se dar bem com o primo, e acontecera justamente o contrário. Gina estava escarlate de vergonha e raiva, e, mais tarde, Alvo pôde ouvir de seu quarto, lá em sua casa, os gritos do irmão. A surra de sua mãe deixaria marcas em Tiago, embora este não fosse mudar tão cedo.

Na intimidade de seu quarto, Alvo pegou a bela varinha, que permanecera o tempo todo no bolso do terno, e uma felicidade muito satisfatória varreu seu rosto, ao som dos gritos do irmão no andar abaixo.

Poucos minutos depois, Alvo pôde vislumbrar momentos de terror para o irmão. Via o grifinório em brasas, numa grande fogueira, e ria muito satisfeito de sua desgraça. Os gritos de Tiago o acompanharam a noite toda, até Alvo Severo acordar, derrubando a varinha no chão e se dar conta de o que desejara para o próprio irmão.

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